Sofro de opinião crónica. Felizmente só me acontece uma vez por semana. (Este anacrónico cronista crónico escreve de acordo com um desacordo com o novo acordo ortográfico) SAI AOS DOMINGOS!
18 de Novembro de 2012

... É como lhe digo, meu caro... O Homem é um animal de hábitos. A ideia é antiga, claro, não invento nada. Mas se da minha experiência ganhei certezas na vida foram a indecifrabilidade das mulheres e da meteorologia, a inescapabilidade da morte e do imposto, a crueldade bestial dos diabetes e esta coisa que vou agora dizer-lhe…

Confesso, está a deixar-me intrigado.

E tem razões para isso. Sem rodeios, o caso é este: Um homem, qualquer homem, não é o resultado de onde e como nasce mas, depois de nascer, do que lhe dão…

Alto lá, meu amigo! Não aceito! Aos trinta anos você não é um abeto à espera de ser podado! É o que quer, que raio! Explique lá isso melhor...

Permita-me. Não me deixou terminar. Ainda a procissão vai no adro. Noto-lhe alguma ansiedade. Aconselho-lhe este licorzinho de malte. Vai ver que é do bom. Mas dizia-lhe, e peço que não volte a interromper-me, com interrupções de dez em dez segundos nem o Diabo se orienta…

Pronto, pronto, fale lá à vontade!

Obrigado. O argumento é fácil, mas complexo. O meu amigo vai ter de lhe prestar atenção. Estava a falar-lhe das qualidades de um homem e de como estas dependem de como ele evolui. Um homem é o que lhe é dado; e isso de se ser o que se lhe dá é uma amputação da personalidade…

Homem, você vai de mal a pior!

Caramba, tenha paciência! Assim zango-me! Ouça-me até ao fim e depois lá poderá opinar. Isto se ainda tiver argumentos. Que diabo, homem, experimente lá o licorzinho! Ao fim de dois ou três golos começa logo a ouvir-me. E ao fim de me ouvir algum tempo, pelas minhas farfalhudas suíças, vai ver que o argumento até lhe cai que nem ginjas!

Pppfffff...

Está a ver? Já me perdi! Que raio estava eu a dizer-lhe? Ah, isso! Há uma amputação. E deixemos, faça-me a cortesia, este ponto intocável. Ora, suceder isto implica também, à partida, que a natureza das nossas escolhas, que moldarão e se moldarão pelo nosso carácter, estará condicionada pelo ambiente em que crescemos...

Bom, cedo-lhe isso. Nesse ponto está certo.

Agradecido. Vejo que já começou a tomar o gosto ao licor. É escocês. Ora, como é natural, isto é confrangedor…

Efectivamente, meu amigo, isso dói.

Será. Mas dói mais a ironia que contém…

Ironia? Que quer você dizer? Chiça, que efectivamente este licor é do bom!

Com certeza que é. Devia ter mais fé no que lhe digo.

Pois, que realmente, sim senhor! Que belo sumo! Mas ora então o senhor adiantava…

Pois sim, a ironia.

Precisamente, a ironiazinha, o meu amigo estava aí.

Sim. Como eu dizia… Se seguirmos a nossa evolução da criança ao Homem, do estudante ao trabalhador, do inconsciente ao responsável, do ingénuo ao avisado, do ignorante ao culto, do rebelde ao institucionalizado…

Isso mais me parece uma involuçãozinha...

Ora aí está! Vejo que já começa a afeiçoar-se à ideia. O licor já o ajudou a perceber-me. É isso mesmo: se o fizermos, acabaremos por nos confrontarmos com o facto de sermos um animal.

Credo! Também não seja bruto! Um animal?

Isso mesmo, um animal. Uma fera autêntica, que se amansa pelas infindáveis leis da vida, acabando depois, com o cansaço dos anos, por precisar do jugo que se tornou familiar…

Alto e pára o baile! A precisar do jugo?! O senhor está a esticar a corda!

Tenha paciência, homem! Cheire-me esse licor, que já está outra vez a dar-lhe ares! Ouça-me até ao fim esta pérola! Esta minha ideia faria as delícias de Darwin se ainda andasse por cá!

Não duvido, não duvido… Mas então desenvolva antes que eu discorde. O meu copo está quase a acabar! O jugozinho, meu amigo, o jugozinho…

Assim é. Essas correntes da juventude…

Porque ser jovem é estar preso à aprendizagem…

E livre para outras coisas!

 

(Risos)

 

Ora, as correntes foram limadas por anos de habituação, como lhe disse…

Realmente disse-o. Confirmo.

E transformaram-se assim em símbolo de refúgio…

Ahhhh!

A memória distorce-se entre as responsabilidades e as escolhas, fazendo do que era uma vontade uma espécie de tédio, do que era um princípio um exemplo do erro, do que era convicção uma casmurrice, do que era uma crença um devaneio…

Ohhhh!

O que desprezávamos passa a parecer-nos bom; o que evitávamos, desejável; o que nos magoava traz-nos a nostalgia do que pudemos já realizar…

Entendo, entendo! Realmente o licorzinho…

É no fundo como assistir à domesticação de um chimpanzé selvagem, que começa por aprender alguns truques em troca de bananas, para acabar por precisar das bananas por lhe lembrarem os truques que fazia…

Meu amigo, estou convencido! Sem dúvida, é o malte!

- Sem dúvida.

publicado por Miguel João Ferreira às 08:04

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