Sofro de opinião crónica. Felizmente só me acontece uma vez por semana. (Este anacrónico cronista crónico escreve de acordo com um desacordo com o novo acordo ortográfico) SAI AOS DOMINGOS!
11 de Novembro de 2012

Obama vence as eleições e sucede a Obama como novo presidente dos E.U.A.

 

Depois da vasta contestação a obama que foi evidente ao longo de todo o processo eleitoral, era previsível que obama fosse destronado e obama lhe sucedesse.

 

Afastado, Obama não apresentou qualquer discurso cessante e saiu pela porte dos fundos, sério e cabisbaixo, como é normal em quem perde.

Vencedor, obama entra pela porta da frente, cheio de sorrisos charmosos, como é seu hábito e como é normal em quem vence.

 

Os apoiantes de Obama lamentam a sua derrota. Já os apoiantes de Obama celebram a sua vitória.

Os primeiros estão repletos de expectativa em relação ao que o recem-eleito Obama vai fazer.

Os últimos estão repletos de expectativa em relação ao que o recem-eleito obama vai fazer.

Mas acima de tudo, a grande expectativa generalizada é o que é que o recém-eleito Obama vai fazer em relação ao que o recém-derrotado Obama fez.

 

Será Obama capaz de evitar os erros de Obama e levar os Estados Unidos para o patamar tão esperado de consolidação da economia, elminação do desemprego, equalitarização das minorias, das mulheres, das classes?

Será este Obama capaz de pacificar os Estados Unidos e como tal o mundo?

Porque sendo os Estados Unidos a polícia do mundo, o mundo fica mais inquieto sempre que a polícia intervém, como é normal em qualquer circunstância em que a polícia intervém, em particular uma polícia tão bélica quanto a americana, sustentáculo principal da sua economia.

 

Veja-se bem! o sustentáculo da sua economia! em Portugal seria um absurdo a PSP ser o sustentáculo da economia nacional.

Mas os Estados Unidos são como toda a gente sabe e Hollywood nos ensina há muito tempo, um país que está à frente de tudo o resto e de todos os outros: em importância, em vanguarda, em soluções. De tal modo que consegue fazer da sua polícia o grande instaurador da ordem sacra americana, como uma entidade internacional, reconhecida, válida, interconstituinte e, não bastando, sustentáculo da sua economia e até das outras que fatalmente a circundam como os satélites circundam os planetas e os planetas a sua estrela que é o sol.

 

Os Estados Unidos e Obama que sucede a Obama e os representa são pois o luís xiv da contemporaneidade político-social.

Um sol negro não deixa de ser uma ironia para todos os puristas da cor. Mas um sol é um sol porque se chama sol e não importa bem que luz ele dá.

 

Porque Obama não vale pelo Obama que é como Obama não valeu pelo Obama que foi. O que vale é que os satélites populacionais nacionais e estrangeiros que vêm Obama e que viram Obama os vejam pelo que eles representam: a esperança de um mundo e de uma vida melhor.

 

Obama, aliás, como se sabe, projectou muita esperança devido às suas incontestáveis qualidades para causar simpatia. E, como seria de esperar  desiludiu. Contransenso lógico, uma vez que o que se espera já não desiulude, e ainda assim a esperança tem destas coisas.

 

Naturalmente, por desiludir, Obama perdeu as eleições para Obama. Mas o Obama que ganhou as eleições é também ele um ícon de esperança. Talvez não tão intensa nem tão acesa como a que tinha Obama, talvez não tanto sol, mas ainda assim, esperança.

 

De facto, mesmo os que se desiludiram com o Obama derrotado têm esperança no Obama vencedor. Porque como o amor, a esperança transfere-se de um corpo para o outro para permitir às populações seguir com as suas vidas.

A esperança é um deus material.

 

Impõe-se, agora que a febre eleitoral é passado, responder às seguintes questões:

Será Obama capaz de arranjar ainda melhores soluções do que Obama arranjoju para os piores problemas de todos, que são invariavelmente os que têm os Estados Unidos por serem o maior e melhor país de todos?

Será que Obama vai ser mais liberal do que Obama foi? Mais aplaudido? Mais contestado?

 

As perguntas terão apenas resposta definitiva e completa dentro de quatro anos e até lá vão-se respondendo a si mesmas pelas acções do próprio Obama recém-eleito, por meio de episódios e capítulos.

 

Parece-me claro que Obama é, ainda, mesmo em relação a Obama, o melhor presidente, de entre todos os candidatos, que os Estados Unidos podiam ter. Mas o melhor que podiam ter de entre os candidatos não é forçosamente o melhor que podiam ter, nem o que deviam ter, isto é, aquilo de que efectivamente precisam. E aquilo de que precisam, por absurdo que possa parecer, mas assim é a política no mundo, não está em nenhum dos candidatos.

 

Diz-se popularmente, "queres algo bem feito, fá-lo tu mesmo". E ainda assim deixa-se democraticamente a gestão das nossas vidas sociais a um grupo de indivíduos em quem manifestamente não podemos confiar.

A organização social sempre surpreendeu pelos seus absurdos.

 

Não se sabe se Obama se vai portar melhor do que Obama se portou. Se vai ser mais humano, mais prático, mais objectivo, mais justo, mais independente, mais activo. Espera-se que sim, no sentido em que há essa expectativa, mas entre os mais avisados espera-se que não, no sentido em que há essa previsão. Porquê? Porque é esse fracasso que é humano e por ser humano é previsível.

 

E esta expectativa e preocupação com o processo eleitoral americano é comum a todos os países de forma compreensível: porque toda a gente sabe como o resultado das políticas americanas influencia em grande escala o comportamento económico, político e social de todos os países do mundo - o que muito contribui para a contínua arrogância americana: é sabido como os americanos imaginam o seu país como o pai de todas as nações, com a mesma dose de absurdo que a de um recém-nascido que se julgasse pai dos seus pais ou dos seus companheiros mais velhos.

 

Ainda assim, apesar dessa natural preocupação com o destino americano, que se torna também o nosso, apesar do inevitável destaque que tem de se lhe dar porque está longe mas afecta o que está perto, é preciso antes de mais não esquecer o que está perto.

 

E no entanto, esqueceu-se: 

Enquanto a América tremia para saber se Obama venceria a Obama, em Portugal 5.000 polícias, num evento pouco visto e essencial para o desenrolar da nossa vida cá dentro, manifestavam-se diante da Assembleia da Repúbica. Os Média, a olhar lá para fora, dando razão à arrogância americana, ignoraram o acontecimento. Evidentemente. Era trivial:

 

Obama ia suceder a Obama. Haveria algo de mais importante?

 

Portugal é um fait-divers na vida efectiva que é por exclusividade o palco internacional. É uma rama, oh que linda rama!, no grande  bosque europeu, quintal americano.

 

Esqueçamos Portugal, ponhamos os olhos na América:

 

O governo agradece o esquecimento. E a Obama, que agora sucede a Obama, seremos sempre indeferentes.

publicado por Miguel João Ferreira às 08:00
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