Sofro de opinião crónica. Felizmente só me acontece uma vez por semana. (Este anacrónico cronista crónico escreve de acordo com um desacordo com o novo acordo ortográfico) SAI AOS DOMINGOS!
25 de Novembro de 2012

depois da estrondosa visita de merkel que afinal nos empobrece porque só nos quer ver felizes, hoje é dia de greve geral. as manifestações multiplicam-se, de bruxelas ao congo. (o congo é um exagero geográfico).

cavaco silva teve o desplante de dizer: "apesar da greve não deixarei de trabalhar". aqui.

a afirmação parece nobre por dois motivos: dá a ideia de que o presidente da república honra a greve, os seus direitos e a importância que tem como forma de protesto (demonstração de um descontentamento colectivo) e ao mesmo tempo faz transparecer que o presidente da república é um homem extremamente responsável, trabalhador e preocupado com os interesses do país: quem está descontente que exerça o seu direito de o estar mas o presidente continua a cumprir o seu papel enquanto tal e a defender os interesses da população.

é o que parece, não é? mas o que parece nobre limita-se a ser escárnio.

seria importante que cavaco silva começasse por explicar aos portugueses em que é que em concreto consiste o seu trabalho e como é um dia na vida do presidente da república. deve ser muito duro.

a frase não é nobreza, é despeito. bem observada, um dos apoiantes da política de austeridade dizer que não deixará de trabalhar apesar da greve é o mesmo que dizer que apesar da oposição que na generalidade se lhe tem feito (ao presidente, ao governo e à austeridade), não deixará de foder os portugueses. a palavra é essa, não há outra.

façam lá a vossa greve, que é qualquer coisa que ainda não podemos impedir abertamente e nós fazemos cá do nosso lado o que temos vindo a fazer. gritem, esperneiem, estejam à vontade. no fim, pagam na mesma. por exemplo, em 2013, já garantido, mais portagens. 40 euros lisboa-porto, é muito pouco. sai mais barato ir a londres de avião, mas londres é londres e é já ali. que importância tem isso?

antónio barreto dizia outro dia em entrevista à sic notícias, com a sua classe habitual (sou, como quase todos, um admirador de antónio barreto), que a liberdade termina quando o protesto assume a forma de violência. em ideia, eu concordo em absoluto com antónio barreto. deixo no entanto esta pergunta:

quando diariamente se sofre a violência física, psicológica e outras no nosso quotidiano (passo o pleonasmo diariamente e quotidiano) deste crescente processo de escravização em massa a que se chama com pompa e circunstância "austeridade" e não há protesto civilizado que valha, e quem produz, vota, faz o país nem sequer consegue confrontar directamente os políticos que o arruínam para proveito pessoal, como conseguir resultados e justiça sem recorrer a qualquer tipo de violência? o 25 de abril que usam como exemplo foi apenas possível porque as forças da ordem, os militares, se revoltaram eles mesmos contra o governo. e revoltaram-se apenas porque estavam a morrer como moscas em guerras que (como qualquer guerra) não serviam ninguém.

numa versão mais simples:

como me defendo pacificamente do homem que me está a bater?

martin luther king jr., ghandi, cristo. três míticos pacifistas (o último mais mítico do que os outros dois) que recomendavam dar a outra face. sem dúvida, lembramo-nos deles. será por terem sido assassinados?

devemos ser mártires para fazer vencer a justiça pacificamente? mas eu gostava de não ter de morrer para conseguir justiça para a minha vida.

agora em espanha mudaram as leis de despejo. a banca congelou os despejos por, se não me engano, 3 anos. a razão? uma mulher desesperada atirou-se do quarto andar quando ia ser despejada. muitas famílias, graças ao seu sacrifício, mantiveram a casa. vou ter de me matar para poder pagar a renda? gostaria de ter mais informações, nesse caso, sobre como funciona o além. preciso de garantias de que terei benefícios - sou, confesso, um pouco materialista nestas coisas.

os muçulmanos têm os bombistas suicidas. dá muito jeito ter pessoas especializadas em auto-sacrifício para benefício dos outros.

com a nossa taxa de desemprego, talvez devessemos começar a formar pessoas para levar a cabo esta ideia: curso intensivo de mártires para o bem comum. bombista exactamente não, que é uma forma de violência e iria incomodar o antónio barreto. mas talvez o saltador suicida, por exemplo, à imagem da mulher catalã (ou era basca?). saltarem todos da ponte 25 de abril. a tvi filmava nos intervalos da casa dos segredos, ainda podia dar um bom espetáculo e em princípio não ia contra os ideiais de não violência de antónio barreto.

é certo que é uma violência sobre o próprio corpo, mas muito mais suavizada. nos dias de hoje, em que só falta legalizar a eutanásia (que até defendo), quase que não é polémico, a não ser claro, que se rebente um prédio inteiro ao jeito da sónia brazão com a agravante da incompetência de nem sequer se matar.

definitivamente, o saltador suicida seria uma boa alternativa de protesto sem violência e com alto grau de eficácia para o futuro de portugal.

o único obstáculo a ultrapassar é ser considerado pecado para a igreja católica. o saltador, durante o seu curso, teria de se converter primeiro ao islamismo para, em vez do inferno, receber no além 40 virgens.

na hora da morte, há que saber escolher as religiões.

publicado por Miguel João Ferreira às 08:56
18 de Novembro de 2012

... É como lhe digo, meu caro... O Homem é um animal de hábitos. A ideia é antiga, claro, não invento nada. Mas se da minha experiência ganhei certezas na vida foram a indecifrabilidade das mulheres e da meteorologia, a inescapabilidade da morte e do imposto, a crueldade bestial dos diabetes e esta coisa que vou agora dizer-lhe…

Confesso, está a deixar-me intrigado.

E tem razões para isso. Sem rodeios, o caso é este: Um homem, qualquer homem, não é o resultado de onde e como nasce mas, depois de nascer, do que lhe dão…

Alto lá, meu amigo! Não aceito! Aos trinta anos você não é um abeto à espera de ser podado! É o que quer, que raio! Explique lá isso melhor...

Permita-me. Não me deixou terminar. Ainda a procissão vai no adro. Noto-lhe alguma ansiedade. Aconselho-lhe este licorzinho de malte. Vai ver que é do bom. Mas dizia-lhe, e peço que não volte a interromper-me, com interrupções de dez em dez segundos nem o Diabo se orienta…

Pronto, pronto, fale lá à vontade!

Obrigado. O argumento é fácil, mas complexo. O meu amigo vai ter de lhe prestar atenção. Estava a falar-lhe das qualidades de um homem e de como estas dependem de como ele evolui. Um homem é o que lhe é dado; e isso de se ser o que se lhe dá é uma amputação da personalidade…

Homem, você vai de mal a pior!

Caramba, tenha paciência! Assim zango-me! Ouça-me até ao fim e depois lá poderá opinar. Isto se ainda tiver argumentos. Que diabo, homem, experimente lá o licorzinho! Ao fim de dois ou três golos começa logo a ouvir-me. E ao fim de me ouvir algum tempo, pelas minhas farfalhudas suíças, vai ver que o argumento até lhe cai que nem ginjas!

Pppfffff...

Está a ver? Já me perdi! Que raio estava eu a dizer-lhe? Ah, isso! Há uma amputação. E deixemos, faça-me a cortesia, este ponto intocável. Ora, suceder isto implica também, à partida, que a natureza das nossas escolhas, que moldarão e se moldarão pelo nosso carácter, estará condicionada pelo ambiente em que crescemos...

Bom, cedo-lhe isso. Nesse ponto está certo.

Agradecido. Vejo que já começou a tomar o gosto ao licor. É escocês. Ora, como é natural, isto é confrangedor…

Efectivamente, meu amigo, isso dói.

Será. Mas dói mais a ironia que contém…

Ironia? Que quer você dizer? Chiça, que efectivamente este licor é do bom!

Com certeza que é. Devia ter mais fé no que lhe digo.

Pois, que realmente, sim senhor! Que belo sumo! Mas ora então o senhor adiantava…

Pois sim, a ironia.

Precisamente, a ironiazinha, o meu amigo estava aí.

Sim. Como eu dizia… Se seguirmos a nossa evolução da criança ao Homem, do estudante ao trabalhador, do inconsciente ao responsável, do ingénuo ao avisado, do ignorante ao culto, do rebelde ao institucionalizado…

Isso mais me parece uma involuçãozinha...

Ora aí está! Vejo que já começa a afeiçoar-se à ideia. O licor já o ajudou a perceber-me. É isso mesmo: se o fizermos, acabaremos por nos confrontarmos com o facto de sermos um animal.

Credo! Também não seja bruto! Um animal?

Isso mesmo, um animal. Uma fera autêntica, que se amansa pelas infindáveis leis da vida, acabando depois, com o cansaço dos anos, por precisar do jugo que se tornou familiar…

Alto e pára o baile! A precisar do jugo?! O senhor está a esticar a corda!

Tenha paciência, homem! Cheire-me esse licor, que já está outra vez a dar-lhe ares! Ouça-me até ao fim esta pérola! Esta minha ideia faria as delícias de Darwin se ainda andasse por cá!

Não duvido, não duvido… Mas então desenvolva antes que eu discorde. O meu copo está quase a acabar! O jugozinho, meu amigo, o jugozinho…

Assim é. Essas correntes da juventude…

Porque ser jovem é estar preso à aprendizagem…

E livre para outras coisas!

 

(Risos)

 

Ora, as correntes foram limadas por anos de habituação, como lhe disse…

Realmente disse-o. Confirmo.

E transformaram-se assim em símbolo de refúgio…

Ahhhh!

A memória distorce-se entre as responsabilidades e as escolhas, fazendo do que era uma vontade uma espécie de tédio, do que era um princípio um exemplo do erro, do que era convicção uma casmurrice, do que era uma crença um devaneio…

Ohhhh!

O que desprezávamos passa a parecer-nos bom; o que evitávamos, desejável; o que nos magoava traz-nos a nostalgia do que pudemos já realizar…

Entendo, entendo! Realmente o licorzinho…

É no fundo como assistir à domesticação de um chimpanzé selvagem, que começa por aprender alguns truques em troca de bananas, para acabar por precisar das bananas por lhe lembrarem os truques que fazia…

Meu amigo, estou convencido! Sem dúvida, é o malte!

- Sem dúvida.

publicado por Miguel João Ferreira às 08:04
11 de Novembro de 2012

Obama vence as eleições e sucede a Obama como novo presidente dos E.U.A.

 

Depois da vasta contestação a obama que foi evidente ao longo de todo o processo eleitoral, era previsível que obama fosse destronado e obama lhe sucedesse.

 

Afastado, Obama não apresentou qualquer discurso cessante e saiu pela porte dos fundos, sério e cabisbaixo, como é normal em quem perde.

Vencedor, obama entra pela porta da frente, cheio de sorrisos charmosos, como é seu hábito e como é normal em quem vence.

 

Os apoiantes de Obama lamentam a sua derrota. Já os apoiantes de Obama celebram a sua vitória.

Os primeiros estão repletos de expectativa em relação ao que o recem-eleito Obama vai fazer.

Os últimos estão repletos de expectativa em relação ao que o recem-eleito obama vai fazer.

Mas acima de tudo, a grande expectativa generalizada é o que é que o recém-eleito Obama vai fazer em relação ao que o recém-derrotado Obama fez.

 

Será Obama capaz de evitar os erros de Obama e levar os Estados Unidos para o patamar tão esperado de consolidação da economia, elminação do desemprego, equalitarização das minorias, das mulheres, das classes?

Será este Obama capaz de pacificar os Estados Unidos e como tal o mundo?

Porque sendo os Estados Unidos a polícia do mundo, o mundo fica mais inquieto sempre que a polícia intervém, como é normal em qualquer circunstância em que a polícia intervém, em particular uma polícia tão bélica quanto a americana, sustentáculo principal da sua economia.

 

Veja-se bem! o sustentáculo da sua economia! em Portugal seria um absurdo a PSP ser o sustentáculo da economia nacional.

Mas os Estados Unidos são como toda a gente sabe e Hollywood nos ensina há muito tempo, um país que está à frente de tudo o resto e de todos os outros: em importância, em vanguarda, em soluções. De tal modo que consegue fazer da sua polícia o grande instaurador da ordem sacra americana, como uma entidade internacional, reconhecida, válida, interconstituinte e, não bastando, sustentáculo da sua economia e até das outras que fatalmente a circundam como os satélites circundam os planetas e os planetas a sua estrela que é o sol.

 

Os Estados Unidos e Obama que sucede a Obama e os representa são pois o luís xiv da contemporaneidade político-social.

Um sol negro não deixa de ser uma ironia para todos os puristas da cor. Mas um sol é um sol porque se chama sol e não importa bem que luz ele dá.

 

Porque Obama não vale pelo Obama que é como Obama não valeu pelo Obama que foi. O que vale é que os satélites populacionais nacionais e estrangeiros que vêm Obama e que viram Obama os vejam pelo que eles representam: a esperança de um mundo e de uma vida melhor.

 

Obama, aliás, como se sabe, projectou muita esperança devido às suas incontestáveis qualidades para causar simpatia. E, como seria de esperar  desiludiu. Contransenso lógico, uma vez que o que se espera já não desiulude, e ainda assim a esperança tem destas coisas.

 

Naturalmente, por desiludir, Obama perdeu as eleições para Obama. Mas o Obama que ganhou as eleições é também ele um ícon de esperança. Talvez não tão intensa nem tão acesa como a que tinha Obama, talvez não tanto sol, mas ainda assim, esperança.

 

De facto, mesmo os que se desiludiram com o Obama derrotado têm esperança no Obama vencedor. Porque como o amor, a esperança transfere-se de um corpo para o outro para permitir às populações seguir com as suas vidas.

A esperança é um deus material.

 

Impõe-se, agora que a febre eleitoral é passado, responder às seguintes questões:

Será Obama capaz de arranjar ainda melhores soluções do que Obama arranjoju para os piores problemas de todos, que são invariavelmente os que têm os Estados Unidos por serem o maior e melhor país de todos?

Será que Obama vai ser mais liberal do que Obama foi? Mais aplaudido? Mais contestado?

 

As perguntas terão apenas resposta definitiva e completa dentro de quatro anos e até lá vão-se respondendo a si mesmas pelas acções do próprio Obama recém-eleito, por meio de episódios e capítulos.

 

Parece-me claro que Obama é, ainda, mesmo em relação a Obama, o melhor presidente, de entre todos os candidatos, que os Estados Unidos podiam ter. Mas o melhor que podiam ter de entre os candidatos não é forçosamente o melhor que podiam ter, nem o que deviam ter, isto é, aquilo de que efectivamente precisam. E aquilo de que precisam, por absurdo que possa parecer, mas assim é a política no mundo, não está em nenhum dos candidatos.

 

Diz-se popularmente, "queres algo bem feito, fá-lo tu mesmo". E ainda assim deixa-se democraticamente a gestão das nossas vidas sociais a um grupo de indivíduos em quem manifestamente não podemos confiar.

A organização social sempre surpreendeu pelos seus absurdos.

 

Não se sabe se Obama se vai portar melhor do que Obama se portou. Se vai ser mais humano, mais prático, mais objectivo, mais justo, mais independente, mais activo. Espera-se que sim, no sentido em que há essa expectativa, mas entre os mais avisados espera-se que não, no sentido em que há essa previsão. Porquê? Porque é esse fracasso que é humano e por ser humano é previsível.

 

E esta expectativa e preocupação com o processo eleitoral americano é comum a todos os países de forma compreensível: porque toda a gente sabe como o resultado das políticas americanas influencia em grande escala o comportamento económico, político e social de todos os países do mundo - o que muito contribui para a contínua arrogância americana: é sabido como os americanos imaginam o seu país como o pai de todas as nações, com a mesma dose de absurdo que a de um recém-nascido que se julgasse pai dos seus pais ou dos seus companheiros mais velhos.

 

Ainda assim, apesar dessa natural preocupação com o destino americano, que se torna também o nosso, apesar do inevitável destaque que tem de se lhe dar porque está longe mas afecta o que está perto, é preciso antes de mais não esquecer o que está perto.

 

E no entanto, esqueceu-se: 

Enquanto a América tremia para saber se Obama venceria a Obama, em Portugal 5.000 polícias, num evento pouco visto e essencial para o desenrolar da nossa vida cá dentro, manifestavam-se diante da Assembleia da Repúbica. Os Média, a olhar lá para fora, dando razão à arrogância americana, ignoraram o acontecimento. Evidentemente. Era trivial:

 

Obama ia suceder a Obama. Haveria algo de mais importante?

 

Portugal é um fait-divers na vida efectiva que é por exclusividade o palco internacional. É uma rama, oh que linda rama!, no grande  bosque europeu, quintal americano.

 

Esqueçamos Portugal, ponhamos os olhos na América:

 

O governo agradece o esquecimento. E a Obama, que agora sucede a Obama, seremos sempre indeferentes.

publicado por Miguel João Ferreira às 08:00
04 de Novembro de 2012

Há quanto tempo já não leio um livro?

 

A literatura inteira perdeu-se na passagem das horas. Folheio as páginas, admiro os títulos, aprecio as capas. Tudo o mais me passa ao lado como ao homem casto é indiferente o desejo.

 

A livraria, mesmo a mais modesta, é para mim um museu.

 

Entro, contente por ser Domingo e eu não pagar a entrada (curiosamente é sempre Domingo numa livraria na minha hora de entrar), avanço devagar para sentir o cheiro do papel prensado e melhor apreciar a decoração, e contemplo, demoradamente, as peças expostas, tendo sempre o cuidado de não lhes mexer.

 

Se estão de frente penso: «Que bonita capa!», mesmo que o não ache. Muitas vezes não encontro meio (por mais que o tente) de estimar aquelas obras em que (apesar do que considero defeitos) outros homens ilustres (com um nome mais sonoro do que o meu) vêem arte. Também me é muito difícil falar delas, por isso, quando me cruzo com algum grupo que as discute profundamente, procuro afastar-me. Se me envolvem na conversa, dou uma desculpa como “estou atrasado, desculpem, gostava muito” e corro para longe como se procurasse a todo o custo apanhar o último comboio.

No entanto, penso comigo mesmo, se esses livros-estátua estão ali, naquele espaço sagrado, e se se encontram expostos com tanto cuidado, é porque uma autoridade (claramente mais douta) os entendeu com um intelecto que eu não tenho e os considerou importantes num universo feito de valores que são, forçosamente, superiores aos meus. Aliás, já por várias vezes tive prova de que os meus valores, quer materiais quer espirituais, são muitíssimo pequenos.

 

De minha conta, pelo menos, não fui feito para negar a autoridade.

 

Por outro lado, se os livros estão por ordem, na sua prateleira, percebo que estão catalogados, e que o modo correcto de estarem é exactamente assim como estão; e mesmo não alcançando a intenção do autor e o critério que o expositor-livreiro escolheu (o que normalmente acontece), considero, um pouco mais alto, para que à minha volta me ouçam e tudo pareça bem: «Que rica lombada! Que ordem! Que perfeição! O artista e o editor estavam embrenhados de rigor estético! E é evidente que o livreiro conhece o seu ofício! É maravilhoso!»

 

E, considerado isto, vou-me embora, agradecendo muito a tolerância e o cuidado aos curadores do museu.

 

Se por acaso levasse alguns daqueles livros para casa, não hesitaria em arrumá-los, na minha sala de estar, exactamente pela mesma ordem; porque sei que se estou em desacordo com alguma coisa largamente implementada é científico que sou eu que estou errado. E se as autoridades se desentendem e contrariam, procuro sempre modo de ter na minha casa espaço para móveis que tenham espaço para cópias exactas dos mesmos livros, tantas quantas as versões das várias autoridades.

 

Por diversas vezes tive de mudar para uma casa maior e quem sabe um dia terei de encontrar um espaço ao ar livre que não seja habitado por ninguém de modo a incluir todas as versões oficiais e críticas de todas as arrumações possíveis e aprovadas de todos os livros que possuo e não leio. Mas fico de consciência tranquila por saber que o meu sacrifício pessoal, justamente insignificante no todo, está a estabelecer, entre as várias autoridades, uma indispensável harmonia.

 

Esta minha forma de estar é no fundo o meu método de abarcar a realidade de um livro e da realidade ela mesma. E sigo esta linha de comportamento porque, para mim, o meu método transmite o consolo agradável de uma calma sensação de segurança, mesmo que esse consolo e essa segurança não sejam mais do que a consequência natural de uma continuada representação de que me acho quase sempre consciente.

 

No fundo, não leio: passo e finjo que leio. Passo e finjo que vivo. Finjo que compreendo. Finjo que sinto como é suposto sentir-se ou finjo que sou realmente capaz de sentir. Finjo que gosto e finjo que gosto de gostar.

 

Numa palavra: finjo; e sinto-me bem com isso.

publicado por Miguel João Ferreira às 18:14
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