Sofro de opinião crónica. Felizmente só me acontece uma vez por semana. (Este anacrónico cronista crónico escreve de acordo com um desacordo com o novo acordo ortográfico) SAI AOS DOMINGOS!
30 de Setembro de 2012

"Exmo. Sr. Dionísio Fortes,

 

Foi com um enorme prazer que recebi a sua carta pedindo a minha opinião (e digo “opinião” por não ousar usar o seu elogioso “ensinamento”) sobre o que para mim é a “Arte” e o que é a “Estética”.

Começo como se pede nestes casos: objectivamente. Isto é, com uma asserção basilar:

É estético o que suscita o desejo. Ponto.

A Estética, caro Fortes, é, a meu ver, a Disciplina da Voluptuosidade.

A Arte é indiscutível, indubitavelmente adogmática; e o dogma que agora estabeleço não está na Arte, mas fora dela, e é de fora dela que eu o constituo como parte integrante de si, isto é, da Arte.

Mais claro: os frutos da árvore que ela é podem cobrir-se de propósitos universais, mascarar-se, talvez, de Humanitários; podem dar-se, alugar-se, vender-se, apelar às massas; mas quem os morde e os sente, o sentido que têm ou não têm, o agradável ou repelente que suscitam, o conforto ou o asco, o belo ou o feio são sempre de um único homem, isto é, o juízo de um particular. Poderá até o meu amigo procurar impor-lhe uma apreciação, um valor, promover esse juízo no quadro da importância social; poderá, se lhe aprouver, dar-lhe um estatuto de lei ou incuti-lo como elementar na sensibilidade amorfa e homogeneizada do padrão social de Bom e de Belo e talvez até (grave ofensa à Arte) de Moral. Mas não pode, prezado Fortes, não pode, além da máscara social, controlar a reacção do indivíduo perante aquilo que vê.

Uma música que ouça em não sei que espaço e queira ter composto você mesmo; umas colunas de não sei que templo, cuja imponência apele ao seu desejo de as ter como parte material da sua porta; um quadro de não sei que cores, que anseie para enfeite das suas paredes brancas, para aplacar a palidez quotidiana; uma mulher, cujas formas o deixem inebriado… todas essas faces da volúpia têm, na hora do desejo, toda a Filosofia, toda a Moral, toda a Estética que suporta e até de que precisa! Todas essas formas e sons e coisas e pessoas, se as quer, se despertam com frémito o seu desejo de posse, são, meu amigo, e repito-o, são, sem dúvida, Arte, Arte, na sua forma mais essencial! E hão-de sê-lo até que enfim se farte, e tudo volte, de novo, a ser banal…

Não consigo, por agora, e também porque esta semana tenho andado fragilizado e febril, adiantar-lhe argumentos mais válidos para sustentar um parecer tão modesto. Permita-me, não obstante, dizer-lhe que, se ele é débil à vista de um olhar académico, está profundamente enraizado nas minhas convicções e, nesse sacrário de ouro das minhas crenças e dos meus pensamentos, não sei de coisa mais irrebatível.

Sem mais com que o mace e abraçando-o com amizade e respeitosos cumprimentos à sua amável esposa,

Muito seu,

J.B."

 

publicado por Miguel João Ferreira às 17:13
23 de Setembro de 2012

Porque me escreves ainda? Porque mandas o criado com bilhetes, como quem faz que telefona se estivesse num século em que isso fosse possível? Porque mandas mensagens que não dizem nada a não ser perguntar se estou disponível para te ouvir ou ler a dizer senão nada?
Se tens alguma coisa a dizer di-lo, em vez de fingires que não podes porque não te respondo, porque não te ouço, porque o gato te comeu a língua ou o cão te comeu o gato ou o diabo te comeu o cão e esfregou o olho.

Se não te respondo, se não te ouço, se o gato te comeu a língua ou o cão te comeu o gato ou o diabo te comeu o cão e esfregou o olho, tu sabes porque não te respondo e porque não te ouço e porque te comeu o gato a língua e o cão o gato e o diabo o cão e esfregou o olho!

Sabes que não te respondo e não te ouço e que o gato te comeu a língua e que o cão te comeu o gato e que o diabo te comeu o cão e esfregou o olho porque não mereces que te responda e que te ouça e que o gato não te coma a língua e que o cão não te coma o gato e que o diabo não te coma o cão e não esfregue o olho! E sabes que podes sempre dizer qualquer coisa, querendo realmente dizer qualquer coisa, em lugar de fingires que não dizes nada porque não sabes muito bem que dizer. E se não sabes muito bem que dizer quer dizer que não há nada a dizer. E se não há nada a dizer, porque finges ter alguma coisa a dizer e ficar ressentida porque não te respondo e não te ouço e o gato te comeu a língua e o cão te comeu o gato e o diabo te comeu o cão e esfregou o olho?

Se não me dizes o que queres dizer e apenas me perguntas se estou lá para responder ou ouvir ou impedir que o gato te coma a língua ou o que o cão te coma o gato ou que o diabo te coma o cão e esfregue o olho então é porque não tens nada a dizer-me ou porque o que tens a dizer-me de nada vale e então mais vale que não te responda e que não te ouça e que o gato te coma a língua e que o cão te coma o gato e que o diabo te coma o cão e esfregue o olho! Porque afinal, que vou eu impedir?

Nunca fui herói de coisa nenhuma, muito menos o teu, muito menos o meu nem tenho planos para me tornar um herói e para te responder e ouvir quando precisas, e para te proteger de todos os gatos e de todos os cães e de todos os demónios que vêm ter contigo a esfregar o olho! (E fi-lo, ainda assim tantas vezes!)

Nunca fui um romântico! Não sei ser romântico. não nasci no tempo da távola redonda, não acredito nos cavalheirismos, nem nos heroísmos, nem nos outros ismos, abomino as pessoas, acho o altruísmo uma capa do egoísta hipócrita e a tua tristeza uma capa da tua indiferença, da tua incapacidade de deixar de teimar em não ser outra coisa que não o erro constante com que te repetes. Se pelo menos, dissesses qualquer coisa que pudesse valer qualquer coisa! Mas tu não dizes nada, nunca dizes nada ou tudo quanto dizes quando dizes alguma coisa não vale coisa nenhuma porque nunca tens nada a dizer! Nada que valha alguma coisa, pelo menos. Ou se calhar sou eu que não valho nada, o que nos leva exactamente ao mesmo ponto:

Isto e o que tens a dizer e o que teria a ouvir se te respondesse e te ouvisse e o gato não te comesse a língua e o cão o gato e o diabo o cão e não esfregasse o olho, não vale nada. isso mesmo: o que tens a dizer, no caso de teres alguma coisa a dizer, não vale nada.

Se valesse a pena o que quererias dizer (se o quisesses), se não estivesses a fingir querer dizer o que não tens para dizer-me, não estaria a ter de dizer-te que não vale a pena fingires que mo digas quando apenas queres dizer-me que queres dizer-me o que não me dizes porque insistes em não dizer nada senão queixar-te que não te respondo e não te ouço e que o gato te comeu a língua e o cão te comeu o gato e o diabo te comeu o cão e esfregou o olho.

Então, porquê chatear-me a responder-te, a ouvir-te, a impedir que… etc.?

Vai à merda!

E quando acabares, vai à merda. e quando pensares em voltar, vai à merda. e fica por lá. na merda. onde tens o hábito de me pôr com a merda que fazes. Merda para ti e para a tua imbecilidade crónica. Porque insistes em maçar-me com coisa nenhuma, em falar se não queres dizer nada? Não queres dizer não digas. Mas não finjas que dizes para continuares calada.

O mais insuportável na tua estupidez é que mesmo para estupidez é insuportável. Tu és insuportável. É evidente, eu sou mais, mas não estamos a falar de mim. Não podemos falar de mim, porque já é público que sou uma besta. Insuportável.

E, no entanto, queres que te responda. Não, não te respondo. Não te ouço. Não impeço que o gato te coma a língua e que o cão te coma o gato e o diabo te coma o cão e esfregue o olho! Não mereces que te responda e que te ouça e que impeça que o gato e o cão e o diabo e o olho! Não mereces! Ou não o mereço eu o que é o mesmo e serve o mesmo propósito de impedir que me canse para coisa nenhuma.

Repito, que fique claro: Não te respondo, não te ouço, não te protejo, não impeço que o gato e o cão e o diabo e o olho! E isto que vês não sou eu a responder-te e a ouvir-te e a proteger-te do gato e do cão e do diabo e do olho. E não sou eu que falo contigo: é a tua estupidez a supor que falo contigo quando não falo e sou eu a dizer-te coisas, como fazes, sem dizer absolutamente nada, como fazes.

Ainda bem que és estúpida. Assim não te ressentes com isso. Com isso de eu não te responder e não te ouvir e de o gato te comer a língua e de o cão te comer o gato e o diabo te comer o cão e esfregar o olho… Com isso de seres idiota e de precisares de mim para o saberes de facto. E de eu precisar de ti para coisa nenhuma que não seja dizer-te que és idiota. E de não precisar de ninguém para saber que o sou.

Pelo menos eu sei que não há nada a dizer. As palavras esgotaram-se. Agora restam só os insultos que, segundo a moral, não são palavras: são indecências.

Mataste tudo. Matei tudo. A indecência é o que sobrou de nós os dois.
Estás a chorar? Não chores. Porque finges que choras? São só lágrimas e, como tu, nem são verdadeiras. 

Se choras, esfrega o olho. E vai para o diabo.

Eu já lá estou.

publicado por Miguel João Ferreira às 18:23
16 de Setembro de 2012

Para Beatriz Canas Mendes, procastinar é viver. Mas na adolescência tudo é urgente, nada é adiável.

Qualquer pormenor é uma descoberta que deve ser ponderada, apreciada e avaliada em toda a sua extensão. Quem quer inteiramente viver a experiência não pode dissociar o que sente do que pensa. Porque, por mais que se queira fazer crê-lo, não é possível separar o prazer da razão.

E no entanto a adolescência é a descoberta do mundo e da vida, das potencialidades do corpo, do sexo, das relações, das pessoas: de si e dos outros. Que tem isso a ver com a razão? Como ponderar?

Sim, tudo é urgente. Procastinar é viver aos 50 anos. Mas aos 15 procrastinar é absolutamente impossível; e o extremo é a medida certa:

O extremo da paixão, o extremo dos desgosto, o extremo do tédio, o extremo da fúria, da indignação, da esperança, da expectativa, da ceteza, da dúvida, da aventura, do medo…

O adolescente precisa do extremo. Sente-se senhor de si, sabe tudo, é dono do mundo e quer apenas crescer o mais depressa possível para gozar em plena liberdade a sua capacidade de experimentar tudo o mais depressa e intensamente possível. O que consegue fazê-lo, ou consegue passar a impressão de conseguir fazê-lo é a miúda da moda, o miúdo "fixe" com quem todos querem estar e falar.

O outro, que não sabe viver o extremo, nem quer, nem consegue, querendo, e que tem outros interesses menos imediatos, é o geek,  o intelectual. Este é ostracizado. É sobre ele que Beatriz nos fala o seu post Os Intelectualóides, datado de 10 de Setembro de 2012:

 

O ciclo de marginalização do intelectualóide inicia-se exactamente no momento em que este começa a conviver regularmente com pessoas alegadamente normais. Até então, talvez ele também o tenha sido, à semelhança dos restantes, mas os sintomas de que existem diferenças nunca lhe passam despercebidos, ainda que os que o rodeiam possam não as descobrir com facilidade. O intelectualóide sente-se diferente, ora não digno de permanecer na companhia dos seus pares, ora demasiado superior para que a isso se sujeite, e, a partir desse momento de revelação, decide passar a viver num mundo paralelo.

   Ora, o intelectualóide ainda criança, muito novo e inexperiente, desenvolve-se de modo diferente das outras crianças. As suas brincadeiras baseiam-se, de preferência, em reproduções fiéis do universo dos adultos, das suas conversas e empolgantes vidas – inevitavelmente misturadas com a ingénua imaginação de alguém da sua tenra idade - pois quem é grande é que sabe, eles é que têm razão e as outras crianças são parvas, dado que só se interessam por coisas estúpidas e sem significado (nesta situação, o intelectualóide revela já um precoce sentimento de superioridade de si próprio em relação a terceiros, adoptando também uma espécie de modelo de comportamento de alguém que admira profundamente).

   É deste modo que o intelectualóide vai crescendo, sem nunca se identificar com os seus pares. Com eles, não partilha opiniões, pensamentos, jogos, gostos musicais, televisivos ou literários, até porque os outros ainda nem sequer abriram um livro na vida, ao contrário dele, que já leu cerca de trinta livros, sete dos quais são os da saga do Harry Potter, que devorou de cinco a vinte vezes cada um, sem exagero. Os miúdos da sua idade só querem é bola e Playstation (ou Game Boy), mas, para ele, esforço físico é algo inteiramente desnecessário à sua sobrevivência, e, sinceramente, nunca foi muito bom a jogar aos Pokemons, ao Super Mario ou ao Sonic, pelo que são igualmente dispensáveis.

   Já o intelectualóide adolescente começa, aos poucos, a reconhecer que existe algo de errado na sua pessoa e a admitir que é provável que tenha alguma culpa por não ser socialmente bem-vindo. Há uma pequena possibilidade de a culpa não ser somente do resto do planeta.

   Então, a partir desta ideia tão inteligente, o intelectualóide começa a desejar ser um pouco menos parecido consigo mesmo. Progressivamente, vai adoptando alguns hábitos e tendências dos que, outrora, menosprezara. Tenta vestir-se como eles (cores pouco berrantes e que condigam umas com as outras), falar como eles (um impropério a cada duas frases), a viver como eles (sem objectivo nenhum a não ser pertencer a uma rede social e excrever axim) e a dar-se com eles (esta parte corre menos bem, porque os seus pais não permitem que saia à noite para bares e discotecas com os inconscientes dos seus colegas de escola).

   Se o intelectualóide for rapaz, mais cedo ou mais tarde apercebe-se de que não tem jeito para cativar o sexo oposto; se o intelectualóide for rapariga, vai demorar imenso tempo a habituar-se à ideia de que aqueles piropos que lhe tinham mandado eram, afinal, a gozar com ela.

   O intelectualóide adolescente percebe, pela primeira vez, que não tem realmente nada a ver com os jovens normais e que, se não se esforçar à séria, passará o resto da sua vida a ser um falhado.

   Entretanto, o intelectualóide muda de escola, pois passou para o ensino secundário. Tem a oportunidade de conhecer novas caras e conviver com elas num ambiente totalmente distinto daquele em que tinha estado até então. Agarrando-se à única chance que tem de lutar por se tornar uma pessoa diferente, melhor, faz de tudo para se sentir confortável nesta nova vida que lhe foi oferecida. Quer sentir-se acolhido e desejado, mais igual e menos diferente, destacar-se por mérito e não por ser um bicho anti-social.

   Com os seus novos colegas, na sua nova escola, sente-se muito mais livre para explorar a sua personalidade. Apesar de, a pouco e pouco, se identificar mais com os outros jovens, aprende a gostar cada vez mais de si próprio. Adquire um estilo pessoal, cimenta os seus valores, estipula o que é mais importante para si. A puberdade costuma ajudar. Com o despontar desta auto-estima, surge o orgulho em sempre ter sido quem é e o ciclo de rejeição termina. À medida que cresce, conhece também mais intelectualóides, fazendo-o ver que, afinal, nunca fora o único.

   Apesar do seu percurso irregular e, por vezes, um pouco triste e solitário, o intelectualóide aprendeu a ser feliz. Pode não ter sido da maneira mais fácil, mas valeu a pena. Aprendeu a distinguir o bem do mal, a verdade da falsidade e a apreciar os obstáculos da vida como nenhuma outra pessoa. Para si, são os pormenores que contam, porque foram eles que sempre o ajudaram a ser positivo nos momentos mais difíceis.

   Com o tempo, o intelectualóide pode vir a alcançar o sucesso e a plena realização pessoal, reconhecendo, do mesmo modo, que ainda tem muito para aprender. No entanto, sabe bem o que vale e não se rebaixa perante nenhum comentário negativo, daqueles que, outrora, o fizeram vergar perante outrem com menos valor. O intelectualóide vai ficando cada vez mais parecido com os seus pares enquanto, no fundo, tem a eterna consciência de que um intelectualóide será sempre um intelectualóide e que gozar desse estatuto não é um fardo, mas sim um privilégio. E que privilegiado ele é!


Ser intelectual é efectivamente um privilégio. Mas um privilégio muito solitário. Para o intelectualóide, procrastinar torna-se o único modo de viver. A sociedade aparta-o do que é imediato.

publicado por Miguel João Ferreira às 15:29
09 de Setembro de 2012

Escrever é triste, como disse Drummond; mas ler é extremamente aborrecido. Por isso, em muitas leituras, é comum saltar parágrafos ou procurar saber quando o livro acaba. Durante muito tempo este instinto pernicioso do mau leitor foi cientificamente denominado preguiça intelectual. Mas se o problema não estiver no leitor mas no autor ou no livro? Ou se afinal o hábito de saltar frases, paráfrafos e páginas for simplesmente um método, repleto de carácter científico, que leva o leitor a ler mais e melhor, que o ajuda a chegar à próxima página e, página a página, ao tão desejado fim do livro?

Esse é o Método Marilyn. Quem o "descobriu" foi Richard Brown e a 27.08.2012 ele foi recordado em Escrever é Triste por Maria do Céu Brojo:

 

Joyce, o dia 16 de Junho de 1904, dele, em “Ulis­ses”, as horas paro­di­a­das de Leo­pold Bloom, Molly Bloom e Stephen Deda­lus nem sem­pre esti­mu­lam lei­tura con­ti­nu­ada. Eve Arnold, a mulher pio­neira do foto­jor­na­lismo, reteve ima­gens várias da capi­tosa loura de Hollywood, Marilyn Mon­roe. Algu­mas, igno­rando poses, revelam-na entre­tida com um calha­maço que a alhe­ava do redor: “Ulis­ses”. Daqui, a per­gunta: “Ela leu ou não leu?” Acres­cento: atriz até nos momen­tos devi­dos ao repouso entre ses­sões fotográficas?

Déca­das após, Richard Brown quis rom­per o mis­té­rio. O pro­fes­sor de Lite­ra­tura escre­veu a Eve Arnold. Que sim, que Marilyn já o lia quando a conhe­ceu. Em voz alta, confessara-lhe, por gos­tar do estilo, con­quanto difí­cil. A loira mítica assim des­men­tiu o (pré)conceito de ser ape­nas um belo corpo exposto gene­ro­sa­mente e des­pro­vido de pen­sar lógico convincente.

Facto é o pro­fes­sor Brown trans­por para a ati­vi­dade letiva o apren­dido na inves­ti­ga­ção: “Ulis­ses” não deve ser lido com a per­sis­tên­cia da água que corre até furar pedra. Abri-lo ao acaso, ler um tre­cho, depois outro é a reco­men­da­ção de Brown aos alu­nos. “Método Marilyn”, chama-lhe.

 

E comenta depois MCB:

 

O mais curi­oso é o con­se­lho de Brown ter alguma vali­dade. Na fase em que lia quase tudo do recente apa­re­cido nas livra­rias — houve cura, feliz­mente! -, des­bra­vei o “Lin­guado” do Gun­ter Grass seguindo o método. Após meia obra dige­rida no modo tra­di­co­nal, não resisti: inter­va­lei pági­nas. Foi o melhor.

 

Quer-me pare­cer que o inter­va­lar pro­vei­toso de pági­nas no “Lin­guado” do Grass não será fruto de mérito do método mas antes da natu­reza do livro. Grass nunca me con­ven­ceu, por isso não me espanta que, nele, o método fun­ci­one.
É ver­dade que Cal­vino me con­vence e é pos­sí­vel ler Se Una Notte d'Inverno un Viaggiatore ou Palo­mar atra­vés do pulu­lante Método Marilyn" — mas é pos­sí­vel por causa da natu­reza frag­men­tá­ria das nar­ra­ti­vas “cal­vi­ni­a­nas” (não con­fun­dir com cali­vi­nis­tas, de Cali­vino, o pro­tes­tante).
Por outro lado, é obri­ga­tó­rio ler José Luís Pei­xoto ou Mar­ga­rida Rebelo Pinto de acordo com esse método, que é outra forma de dizer é con­ve­ni­ente, deles, não ler coisa nenhuma.
No entanto, se ten­tar­mos um romance de Dos­toi­evsky ou, numa maior rela­ção causa-efeito, um livro de Agatha Chris­tie, o método torna-se con­fuso. aliás, seguindo o "Método Marilyn", que seria do pobre Poir­rot?
Bem vis­tas as coi­sas, o "Método Marilyn" é o que uso nas livra­rias quando tenho dúvi­das sobre a qua­li­dade de um livro. Cinco minu­tos são mais do que sufi­ci­en­tes. E, uma vez apli­cado o método na livra­ria, por norma com sucesso, já não tenho neces­si­dade de o apli­car em casa.
Quanto ao Ulis­ses de Joyce, o que reco­lhi da minha expe­ri­ên­cia de lei­tor e do con­ví­vio com alguns aca­dé­mi­cos mais fanáticos é que este romance tem, como cer­tos livros — ex.: À La Recherche du Temps Perdu de Proust -, uma carac­te­rís­tica muito par­ti­cu­lar: o agen­da­mento.
Os livros, como os fru­tos, devem ser colhi­dos no seu tempo pró­prio. Os moran­gos (se não falho na cul­tura agró­noma) são em Maio. Proust e Joyce são na ter­ceira idade — na pior das hipó­te­ses, nunca antes dos 50.
Por essa altura, a lan­gui­dez, a expe­ri­ên­cia, a paci­ên­cia ori­en­tal adqui­ri­das na baga­gem de um espí­rito que se tor­nou melan­có­lico, fazem com que saiba bem seguir as via­gens de Bloom nos labi­rin­tos do seu quo­ti­di­ano ou as memó­rias de um Proust aca­mado. Por isso lá estão, na pra­te­leira, a olhar para mim, enquanto espe­ram que tam­bém eu me veja nesse estado.
Até lá, vou apro­vei­tando o ser novo e prá­tico para ler livros com maior dose de leveza, como os de Kant, Nietzs­che ou Tols­toy que, com­pa­ra­dos com os de Proust e Joyce, parecem a Treasure Island de Robert Louis Stevenson.

 

Moral da crónica: evi­tar o "Método Marilyn" é apli­car o método no momento da com­pra e guar­dar o livro para o seu tempo pró­prio.

Ainda que, a jul­gar pela exten­são deste texto, apli­carmos aqui este método tam­bém possa vir a provar-se uma medida útil. Há extensões que fazem mesmo apetecer um salto para a última página.

Quando acaba mesmo esta crónica?

publicado por Miguel João Ferreira às 22:14
02 de Setembro de 2012

Um copo de whisky é razão que baste para pensar em suportar mais um dia. Há algo na decadência inegável do álcool que te dá vontade de experimentar tudo outra vez. O chefe que grita ordens que não sabe cumprir, a mulher que te grita queixas que ela não entende, os filhos que te gritam revoltas que não são as suas, os vizinhos que te gritam culpas do que não fizeste.

Um copo de whisky e o chefe e a mulher e os filhos que nem interessa se tens ou se são teus e os vizinhos que te desprezam com um desprezo mútuo desaparecem todos num ápice. E o dia seguinte é uma perspectiva encantadora de passar por tudo outra vez, com variantes mais apelativas.

Um copo de whysky e a felicidade é possível. Se eu não fosse alcoólico quereria sê-lo. Como não sou alcoólico escrevo sobre a perspectiva de o ser com uma nostalgia própria de quem tem saudades do que está para vir. Se eu fosse alcoólico não poderia escrever sobre o encanto de se ser alcoólico, porque não há qualquer encanto em ser alcoólico e, sendo alcoólico, não saberia sequer o que o encanto é: um engano terrível. Ou seja, estaria encantado com o ser alcoólico sem o saber que o estava e continuando a procurar o encanto no álcool. 

E talvez o maior charme do álcool seja mesmo esse: fazer-te continuamente procurar algo que já tens e de que, por isso, não precisas, como se o não tivesses e precisasses de o ter. Nesse aspecto será justo dizer que o álcool é tal como a vida. Já tens o milagre da vida. Vives. Respiras. Mas faças o que fizeres permaneces descontente e continuas a procurar o milagre de viver melhor.

Se o álcoolismo não fosse uma doença crónica, eu quereria beber até esgotar o corpo. Mas o álcool é uma doença crónica. E a vida é uma doença crónica. E eu vivo, todos os dias, exaustivamente, até me esgotar.

E porque não suporto mais o esgotamento irracional das minhas forças, bebo, tanto quanto posso e mais do que posso, na esperança de que ao fazê-lo possa sentir-me mais vivo do que me sinto vivendo e menos exausto de pensar e sentir a vida que tenho e faço. E o que tenho e faço é coisa nenhuma. Então porque me custa pensá-lo? E senti-lo? E vivê-lo? Porque será que viver o que não vivo me cansa tanto e me leva tanto a beber tanto o que me sabe tão mal e tão bem por me saber tão mal? 

Porque há algo na nossa decadência que é fascinante.

Há algo no amargo que é doce.

Há algo na dor que te dá prazer, que te conforta mais que um abraço ou um beijo.

Quando na vida vês o sol e sorris, e vês as flores e dizes que são belas, e te deitas com uma mulher nua e estás dentro dela e te vens e descobres que a vida é perfeita, descobres afinal que a vida não tem perfeição nenhuma, que toda essa luz, toda essa beleza, todo esse prazer são tão breves, tão insignificantes que valem coisa nenhuma. E o descobrires quanto valem (que é nada) dá-te um vazio maior do que o que tinhas antes de saber que essas breves interpretações da felicidade possível existiam.

Mas a dor, mesmo quando passageira, mesmo quando não a sentes, mesmo quando te leva à mais excruciante e abominável decadência, manifestação eloquente do teu permanente desejo de auto-destruição, da tua razão intelectual de existir a lutar contra o teu instinto de sobrevivência, a dor é sempre real, é sempre contínua, é sempre a certeza, a única que tens, de que realmente estás vivo.

O institno de auto-sobrevivência é uma armadilha de Deus. Um condicionante biológico implantado nos teus neurónios, nas tuas células, no teu adn, para que possas continuar a adorá-lo. E quando, não te querendo matar, perdes a fé, ele vinga-se matando-te com dúvidas:

Que sentido há nisto?

Que estou aqui a fazer?

Porque quero existir ainda?

E porque sabes que não queres, bebes. No fundo é como se vivesses. Mas o álcool dá mais resultado. E nunca te desilude, como os outros.

Ah, e o amargo do whisky… O amargo é o único sabor que me sabe a doce. 

Se tu fosses amarga…

publicado por Miguel João Ferreira às 20:48
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