Sofro de opinião crónica. Felizmente só me acontece uma vez por semana. (Este anacrónico cronista crónico escreve de acordo com um desacordo com o novo acordo ortográfico) SAI AOS DOMINGOS!
12 de Fevereiro de 2012

D. Raimundo de manhã põe os óculos.

 

Ainda tem a touca de dormir, as ramelas nos olhos, o pijama às riscas, os lençóis por cima do seu sono curto, e esbraceja como um urso esfomeado. Mas a sua identidade só se acha com esse objecto de massa preta perfilando as linhas do seu rosto.

 

D. Raimundo não é Raimundo nem Dom sem ter esse suporte de si mesmo e é sobre ele que os seus dons se constroem; é uma imagem que moldou, claro está.D. Raimundo nem precisa de óculos... mas o que tem de ver da realidade parece-lhe desfocado sem a sua fachada de homem prezado, sem a sua roupa de estar com alguém, sem a sua pele de ser conjunto.

 

Assim, mesmo quando está sozinho, para que esse esforço seja natural, D. Raimundo, ao despertar para o que supõe ser a vida, prende de imediato essa réplica ao rosto e exercita-se condigno e inteligente. E é com grande satisfação que, uma vez despertado com o placebo do falso em que se fez, salta da caminha sacudindo as carnes e, diante de um espelho muito largo, bate palmas ruidosas de contente, proclamando em urros o repetido sucesso de se esconder do que é.


Não tem mais agora do que memorizar aquela imagem e de a levar consigo para onde quer que vá, mostrando a toda a gente que o que finge é um fingimento tão humanamente natural que não pode ser senão o mais profundo reflexo de si próprio. E os outros, que são como ele, nem sonham que estará a mentir. Não lhes interessa, aliás, porque isso seria pôr em perigo a sua naturalidade. 


E de noite, antes de dormir, D. Raimundo e os seus pares (ímpares entre si) vão a clubes comuns criados para esse efeito de trocar impressões sobre as suas máscaras e os seus adereços constituintes e orgânicos, entre os fumos das palavras ôcas, os éteres dos sentidos dúbios e as hipocrisias prazenteiras das palmadas nas costas.


A felicidade, enfim, é uma escolha, e a escolha de Raimundo é isto...


E tu, leitor, como escolhes?

publicado por Miguel João Ferreira às 13:46
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