Sofro de opinião crónica. Felizmente só me acontece uma vez por semana. (Este anacrónico cronista crónico escreve de acordo com um desacordo com o novo acordo ortográfico) SAI AOS DOMINGOS!
29 de Janeiro de 2012

«Quanto mais penso, menos sinto.

 

Quanto mais sinto, menos penso.

 

Quanto mais penso o que sinto, menos percebo o que sinto e mais penso no que penso, mas já não sinto nem o que sinto nem o que penso.

 

E quanto mais sinto o que penso, mais sinto que pensar e sentir não combinam nas sensações nem nos pensamentos.

 

E quanto mais sinto o que sinto e penso no que penso, mais penso que o que sinto é maior do que o que penso, mas que não há maneira de perceber porque o sinto.

 

E depois já nem sei se o penso só para não sentir da mesma maneira ou se o sinto a um extremo além das sensações como modo absurdo de tentar não pensar.

 

Ou, quem sabe, limito-me a pensar e sentir num esforço de sentir que penso, mesmo quando não penso e apenas sinto; isto é, quando todo eu sou animalidade e sensação, racionalizo, tentando "civilizar o que não tem civilização possivel ou, se a tem, tem-na apenas numa manifestação puramente artificial.

 

Ou seja: se sinto e penso que sinto, talvez não o sinta deveras porque estou pensando; e se sinto e não penso, talvez não o sinta porque não o sei por o não ter pensado.

 

Nesse caso, nunca sinto de facto e apenas penso, mesmo quando não penso ou mesmo quando penso que não penso mas sinto.

 

Faz sentido?

 

Não sinto que o faça nem penso nisso.

 

Penso apenas que não sei o que sinto e que não vale a pena pensá-lo.»

 

Foi com estas palavras que o Prof. Jean Sèrien abriu a sua palestra sobre as faculdades do cérebro. Durante duas horas e meia vi-o dissertar sobre as emoções humanas e o comportamento neuronal da grande massa cinzenta. Seguiu-se uma sessão de perguntas do público, uma mesa redonda, o testemunho de um segundo orador (gago e disléxico) e só então, passadas quatro penosas horas no meu relógio de pulso, se abriu o plenário aos jornalistas.

 

Quando chegou a minha vez, já me tinha esquecido de tudo quanto tinham dito e de quanto eu queria dizer. Para não fazer má figura, perguntei qualquer coisa de circunstância sobre a funcionalidade do reflexo. Um erro, já que o Prof. viu larga pertinência na pergunta e se alongou numa resposta de mais de meia hora. 

 

Quando finalmente pude levantar-me, corri para a mesa do café, no buffet que nos esperava na sala contígua e servi-me de uma grande taça. Não conseguia entender porque tinha a minha revista de vinhos enviado um correspondente a um evento académico sobre neurologia emocional. Encostei-me à janela entreaberta, perdido nestas cogitações, para apanhar um pouco de ar, procurando um ângulo para o texto que daí a umas horas teria de entregar ao editor chefe. Foi então que reparei na grande faixa suspensa nas janelas do quinto andar no prédio em frente:

 

GRANDE EVENTO DE ENOLOGIA.

 

Estarrecido, levei a mão ao bolso. A morada estava correcta. Mas, se a morada no papel estava correcta, o lugar correcto estava no edifício errado. E isto só podia dizer uma coisa: «O estafeta escreveu-me o endereço errado!»

 

Falei alto de mais. Da sala onde discursava o Prof. viraram-se umas cabeças sisudas e reprovadoras. Voltei a olhar pela janela. Quatro homens engravatados retiravam as faixas. O GRANDE EVENTO terminara e eu acabava de perder o meu artigo por um erro de dactilografia. O que dizer ao editor?

 

Sem outro remédio que não improvisar, como compete a um bom jornalista na ausência de factos, voltei para a sala do Prof. Jean Sèrien, peguei no meu bloco de notas e comecei a escrever:

 

"UM BOM VINHO

 

Da garrafa à boca. Como pensá-lo e como senti-lo. Como o cérebro responde ao paladar..."

 

As notas corriam depressa. Senti o princípio de um bom texto. Isto é: pensei no quanto este início bastaria para convencer o meu editor.

 

Os factos estão sobrevalorizados. O que importa, em última análise, é a notícia. É a notícia que dá satisfação ao leitor. E desafio qualquer um a provar o contrário.

publicado por Miguel João Ferreira às 21:55
22 de Janeiro de 2012

O Sr. S. é um indivíduo extremamente completo, por quem nutro a maior admiração. Conheço o Sr. S. há vários anos, e não sei como consegue, todos os dias, manter uma disciplina espartana inigualável e um excêntrico sentido estético que ninguém entende, mas que, das camisas floridas às calças justas e gravatas berrantes, lhe fica sempre bem.

 

Quando vejo o Sr. S. em acção, fico como que hipnotizado, assistindo como um aprendiz embevecido à manifestação sobre-humana de todas as suas capacidades.

 

Que se diga desde já que o Sr. S. é um crítico e, estando a nossa sociedade recheada de críticos, desde o crítico da batata ao crítico do repolho, posso garantir que não há como ele.

 

Efectivamente, não sei de área artística ou do conhecimento em que o Sr. S. não exerça em todo o seu esplendor a sua faculdade de julgar. Seguindo com rigor feroz os preceitos elementares da crítica kantiana, põe em todas as coisas, para proveito comum, a argúcia descomprmetida do seu omnividente olhar. E é com a mesma exactidão infalível que nos fala das virtudes e defeitos dos últimos nomeados aos Óscares da Academia, dos últimos sons das discotecas de Tokyo, das últimas ementas dos melhores Gourmets, das últimas tendências da nova estação, das últimas frases icónicas para falar em televisão com graça ou para discursar em público.

 

Não é por isso de admirar que, todos os dias, cheguem à secretária do Sr. S. encomendas de restaurantes, editoras, produtoras, agências de modelos, agências de viagens, e até missivas do próprio Presidente da República, pedindo-lhe encarecidamente que tome conhecimento de x e de y, para deles dar opinião, que se espera possa ser favorável, com licença de Sua Excelência , muito gratos pela atenção, etc., etc.

 

Como se vê, o Sr. S. é a autoridade máxima na sua gravitação social, o arbiter elegantiarum de toda a graça terrena, naquele pequeno círculo de influências em que se insere, de tal modo que, pior do que ser achincalhado pela espirituosa e implacável acidez dos seus juízos críticos, é não ser julgado de todo, estar sujeito à possibilidade gravíssima e quase irreparável de o Sr. S. não saber da sua existência.

 

Por isto tudo, vejo no Sr. S. o meu melhor exemplo de progressão colectiva, de evolução do meu ser social dentro do conjunto. Mas, se me afasto do seu círculo de influências, daquela pequena elite fora do mundo que gravita em torno de si própria, já não consigo encontrar qualquer brilhantismo no Sr. S., nem na sua fina faculdade de julgar, de que o próprio Kant, afinal, sentiria vergonha.

 

Porque, para além daquelas coisas que o tornam ilustre, das críticas de prestígio circularmente subsidiadas e das festas que introduzem os interesses comuns, o Sr. S. é vazio de opiniões, não sabe encontrar valor em nada.

 

Mais grave, o Sr. S. não sabe criticar-se a si próprio. E de tal modo acredita na naturalidade de ser tal como é, sem nunca se ter questionado, que um dia acabará por desaparecer. E outro como ele tomará o seu lugar, numa sucessão contínua de críticos brilhantes e inconsequentes, condenada ao esquecimento.

 

Repare-se que, quando emite um juízo ou uma opinião, o Sr. S. quer apenas emitir um juízo ou uma opinião, para bem desse mesmo juízo e dessa mesma opinião, sob a autoridade que o seu círiculo lhe confere. E o objecto de que emite o juízo trata-se afinal de um pretexto para a sua faculdade de julgar, o MacGuffin da sua crítica que é o verdadeiro objecto-usurpador com que subtrai do seu lugar legítimo o objecto primeiro que se propunha julgar.

 

O Sr. S. critica pois a crítica que se anula a si própria e o anula sucessivamente. E surpreendentemente, com toda a sua autoridade, o Sr. S. ainda não descobriru que criticar ou julgar não é emitir um juízo, mas encontrar a beleza que há nas coisas.

 

Quando dou a minha opinião não estu meramente a dar parte da minha subjecticvidade, mas a destacar o que é para mim iimportante. Não o que quero tornar importante, mas o que já o é quando vem ao meu encontro. Como, de um texto, sublinhar uma frase, que já existe e já chama por mim.

 

Este sublinhar a importância das coisas é um modo de dizer a cada experiência: do que me é dado, isto vale a pena ser vivido.

 

Por isso o Sr. S. não vive, mas passa, sem ter noção de si próprio. Faltou-lhe sublinhar as suas experiências.

publicado por Miguel João Ferreira às 17:10
15 de Janeiro de 2012

O aparecimento de mais um espaço de crónicas deve a todos ficar indiferente. Deus sabe como lhe fico indiferente, sendo o seu responsável. Assim, irresponsavelmente, exerço a minha liberdade de ser inútil, aspecto máximo da manifestação de qualquer liberdade.

 

Para compreender a razão de ser deste fenómeno irracional, comecemos por lhe desconstruir o significado.

 

A rigor, como substantivo, (diz o Priberam) a crónica é:

 

a) Uma história que expõe os factos em narração simples e segundo a ordem em que eles se vão dando.
b) Secção de periódico destinada a notícias determinadas.
c) [Figurado]  Biografia escandalosa.

E, como adjectivo:

 

a) Algo que dura há muito tempo.
b) [Figurado]  Um inveterado.
c) [Medicina]  Uma doença permanente no indivíduo.

 

Como é evidente, estamos a falar do último caso

 

Um fenómeno patológico que se manifesta com irritante regularidade semanal, com a simplicidade de quem inocentemente está a contar uma história. Mas não há inocência no contar-se uma história e é no supor-se que a há, ou no fingir que se supõe que a há que reside o erro do leitor e a perfídia do cronista crónico.

 

Assim, de forma maquiavélica e peculiar, o presente texto auto-justifica-se pela ausência evidente de justificação, clarifica-se pela ausência de sentido e faz-se pertinente pela ausência de assunto.

 

Mais caricato, consegue, sem argumentos convincentes, provar que é uma crónica de si próprio, contando, despreocupadamente, a história de se achar aqui e de ser o que é, um texto chamado crónica, que é o primeiro de vários e, como outros que se lhe seguem, não diz nem quer dizer nada.

 

Ou não.

publicado por Miguel João Ferreira às 12:48
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