Sofro de opinião crónica. Felizmente só me acontece uma vez por semana. (Este anacrónico cronista crónico escreve de acordo com um desacordo com o novo acordo ortográfico) SAI AOS DOMINGOS!
22 de Janeiro de 2012

O Sr. S. é um indivíduo extremamente completo, por quem nutro a maior admiração. Conheço o Sr. S. há vários anos, e não sei como consegue, todos os dias, manter uma disciplina espartana inigualável e um excêntrico sentido estético que ninguém entende, mas que, das camisas floridas às calças justas e gravatas berrantes, lhe fica sempre bem.

 

Quando vejo o Sr. S. em acção, fico como que hipnotizado, assistindo como um aprendiz embevecido à manifestação sobre-humana de todas as suas capacidades.

 

Que se diga desde já que o Sr. S. é um crítico e, estando a nossa sociedade recheada de críticos, desde o crítico da batata ao crítico do repolho, posso garantir que não há como ele.

 

Efectivamente, não sei de área artística ou do conhecimento em que o Sr. S. não exerça em todo o seu esplendor a sua faculdade de julgar. Seguindo com rigor feroz os preceitos elementares da crítica kantiana, põe em todas as coisas, para proveito comum, a argúcia descomprmetida do seu omnividente olhar. E é com a mesma exactidão infalível que nos fala das virtudes e defeitos dos últimos nomeados aos Óscares da Academia, dos últimos sons das discotecas de Tokyo, das últimas ementas dos melhores Gourmets, das últimas tendências da nova estação, das últimas frases icónicas para falar em televisão com graça ou para discursar em público.

 

Não é por isso de admirar que, todos os dias, cheguem à secretária do Sr. S. encomendas de restaurantes, editoras, produtoras, agências de modelos, agências de viagens, e até missivas do próprio Presidente da República, pedindo-lhe encarecidamente que tome conhecimento de x e de y, para deles dar opinião, que se espera possa ser favorável, com licença de Sua Excelência , muito gratos pela atenção, etc., etc.

 

Como se vê, o Sr. S. é a autoridade máxima na sua gravitação social, o arbiter elegantiarum de toda a graça terrena, naquele pequeno círculo de influências em que se insere, de tal modo que, pior do que ser achincalhado pela espirituosa e implacável acidez dos seus juízos críticos, é não ser julgado de todo, estar sujeito à possibilidade gravíssima e quase irreparável de o Sr. S. não saber da sua existência.

 

Por isto tudo, vejo no Sr. S. o meu melhor exemplo de progressão colectiva, de evolução do meu ser social dentro do conjunto. Mas, se me afasto do seu círculo de influências, daquela pequena elite fora do mundo que gravita em torno de si própria, já não consigo encontrar qualquer brilhantismo no Sr. S., nem na sua fina faculdade de julgar, de que o próprio Kant, afinal, sentiria vergonha.

 

Porque, para além daquelas coisas que o tornam ilustre, das críticas de prestígio circularmente subsidiadas e das festas que introduzem os interesses comuns, o Sr. S. é vazio de opiniões, não sabe encontrar valor em nada.

 

Mais grave, o Sr. S. não sabe criticar-se a si próprio. E de tal modo acredita na naturalidade de ser tal como é, sem nunca se ter questionado, que um dia acabará por desaparecer. E outro como ele tomará o seu lugar, numa sucessão contínua de críticos brilhantes e inconsequentes, condenada ao esquecimento.

 

Repare-se que, quando emite um juízo ou uma opinião, o Sr. S. quer apenas emitir um juízo ou uma opinião, para bem desse mesmo juízo e dessa mesma opinião, sob a autoridade que o seu círiculo lhe confere. E o objecto de que emite o juízo trata-se afinal de um pretexto para a sua faculdade de julgar, o MacGuffin da sua crítica que é o verdadeiro objecto-usurpador com que subtrai do seu lugar legítimo o objecto primeiro que se propunha julgar.

 

O Sr. S. critica pois a crítica que se anula a si própria e o anula sucessivamente. E surpreendentemente, com toda a sua autoridade, o Sr. S. ainda não descobriru que criticar ou julgar não é emitir um juízo, mas encontrar a beleza que há nas coisas.

 

Quando dou a minha opinião não estu meramente a dar parte da minha subjecticvidade, mas a destacar o que é para mim iimportante. Não o que quero tornar importante, mas o que já o é quando vem ao meu encontro. Como, de um texto, sublinhar uma frase, que já existe e já chama por mim.

 

Este sublinhar a importância das coisas é um modo de dizer a cada experiência: do que me é dado, isto vale a pena ser vivido.

 

Por isso o Sr. S. não vive, mas passa, sem ter noção de si próprio. Faltou-lhe sublinhar as suas experiências.

publicado por Miguel João Ferreira às 17:10
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