Sofro de opinião crónica. Felizmente só me acontece uma vez por semana. (Este anacrónico cronista crónico escreve de acordo com um desacordo com o novo acordo ortográfico) SAI AOS DOMINGOS!
04 de Novembro de 2012

Há quanto tempo já não leio um livro?

 

A literatura inteira perdeu-se na passagem das horas. Folheio as páginas, admiro os títulos, aprecio as capas. Tudo o mais me passa ao lado como ao homem casto é indiferente o desejo.

 

A livraria, mesmo a mais modesta, é para mim um museu.

 

Entro, contente por ser Domingo e eu não pagar a entrada (curiosamente é sempre Domingo numa livraria na minha hora de entrar), avanço devagar para sentir o cheiro do papel prensado e melhor apreciar a decoração, e contemplo, demoradamente, as peças expostas, tendo sempre o cuidado de não lhes mexer.

 

Se estão de frente penso: «Que bonita capa!», mesmo que o não ache. Muitas vezes não encontro meio (por mais que o tente) de estimar aquelas obras em que (apesar do que considero defeitos) outros homens ilustres (com um nome mais sonoro do que o meu) vêem arte. Também me é muito difícil falar delas, por isso, quando me cruzo com algum grupo que as discute profundamente, procuro afastar-me. Se me envolvem na conversa, dou uma desculpa como “estou atrasado, desculpem, gostava muito” e corro para longe como se procurasse a todo o custo apanhar o último comboio.

No entanto, penso comigo mesmo, se esses livros-estátua estão ali, naquele espaço sagrado, e se se encontram expostos com tanto cuidado, é porque uma autoridade (claramente mais douta) os entendeu com um intelecto que eu não tenho e os considerou importantes num universo feito de valores que são, forçosamente, superiores aos meus. Aliás, já por várias vezes tive prova de que os meus valores, quer materiais quer espirituais, são muitíssimo pequenos.

 

De minha conta, pelo menos, não fui feito para negar a autoridade.

 

Por outro lado, se os livros estão por ordem, na sua prateleira, percebo que estão catalogados, e que o modo correcto de estarem é exactamente assim como estão; e mesmo não alcançando a intenção do autor e o critério que o expositor-livreiro escolheu (o que normalmente acontece), considero, um pouco mais alto, para que à minha volta me ouçam e tudo pareça bem: «Que rica lombada! Que ordem! Que perfeição! O artista e o editor estavam embrenhados de rigor estético! E é evidente que o livreiro conhece o seu ofício! É maravilhoso!»

 

E, considerado isto, vou-me embora, agradecendo muito a tolerância e o cuidado aos curadores do museu.

 

Se por acaso levasse alguns daqueles livros para casa, não hesitaria em arrumá-los, na minha sala de estar, exactamente pela mesma ordem; porque sei que se estou em desacordo com alguma coisa largamente implementada é científico que sou eu que estou errado. E se as autoridades se desentendem e contrariam, procuro sempre modo de ter na minha casa espaço para móveis que tenham espaço para cópias exactas dos mesmos livros, tantas quantas as versões das várias autoridades.

 

Por diversas vezes tive de mudar para uma casa maior e quem sabe um dia terei de encontrar um espaço ao ar livre que não seja habitado por ninguém de modo a incluir todas as versões oficiais e críticas de todas as arrumações possíveis e aprovadas de todos os livros que possuo e não leio. Mas fico de consciência tranquila por saber que o meu sacrifício pessoal, justamente insignificante no todo, está a estabelecer, entre as várias autoridades, uma indispensável harmonia.

 

Esta minha forma de estar é no fundo o meu método de abarcar a realidade de um livro e da realidade ela mesma. E sigo esta linha de comportamento porque, para mim, o meu método transmite o consolo agradável de uma calma sensação de segurança, mesmo que esse consolo e essa segurança não sejam mais do que a consequência natural de uma continuada representação de que me acho quase sempre consciente.

 

No fundo, não leio: passo e finjo que leio. Passo e finjo que vivo. Finjo que compreendo. Finjo que sinto como é suposto sentir-se ou finjo que sou realmente capaz de sentir. Finjo que gosto e finjo que gosto de gostar.

 

Numa palavra: finjo; e sinto-me bem com isso.

publicado por Miguel João Ferreira às 18:14
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