Sofro de opinião crónica. Felizmente só me acontece uma vez por semana. (Este anacrónico cronista crónico escreve de acordo com um desacordo com o novo acordo ortográfico) SAI AOS DOMINGOS!
28 de Outubro de 2012

André Bazin (1918-1958), eminente estudioso francês, insistia, no tempo em que podia insistir, que o chamado "long take" (plano de filmagem contínuo, durante vários minutos, sem cortes ou montagem) revela o mundo ao espectador, mas também, para além dele (e era isso que para Bazin era essencial), revela todo o aparato cinematográfico, mesmo que não demonstre claramente que a câmara ou o cenário estão lá, fora dos limites da ficção que compõem.

Para Bazin, devido a essa particularidade epifânica, o "long take" deveria ter primazia sobre, por exemplo, a "montage" eisensteiniana, por dar a liberdade ao espectador de escolher, do plano, o que quisesse, em lugar de sofrer a manipulação da montagem, com características clara e fortemente políticas.

Não posso porém deixar de pensar na ingenuidade utópica da pretensão de Bazin:. Em última análise, a limitação que, por exemplo um Eisenstein imporá ao espectador no seu Outubro (1917), é a mesma que os "long takes" de Orson Welles nos dão em Citizen Kane (1941). A moldura da câmara mostra apenas o ponto de vista do realizador, que nos oferece (ao olho) o resultado das suas próprias escolhas. A isto junta-se a constrangedora limitação da Física ou da nossa realidade, como as dimensões do televisor ou o alcance periférico da vista humana.

Para Bazin, aparentemente, a observação livre é a que não sofre interrupções. Apreender a realidade (ou a ficção) de forma verdadeiramente pessoal é poder recebê-la, seja por que instrumento for, num olhar fixo que acaba apenas quando tiver acabado a extensão do observável. Mas então a realidade apreendida ficará sempre incompleta por ficar sempre aquém da realidade apreensível. Há sempre mais além para ver, mesmo numa terra redonda e não há tempo que baste para ter tudo visto.

Além do mais, a observação ficaria sempre contaminada pelos obstáculos: a núvem que passa diante do objecto que vemos, o pássaro que nos cruza o olhar, o automóvel que atravessou a paisagem. Claro que neste caso podemos dizer que a interrupção não é uma verdadeira interrupção porque faz parte do que estamos a observar. São elementos constituíntes do nosso plano contínuo. Que dizer porém da mão do indivíduo que está na mesma sala que nós que surge inadvertidamente diante do écran? Ou da empregada que foi paga para vir servir as bebidas e só podia passar por frente da televisão, porque o sofá estava encostado à parede? Ou do espirro do espectador ao nosso lado? Ou de um simples piscar de olhos? Porque os olhos precisam de piscar, é uma obrigatoriedade anatómica: quanto tempo consegues estar sem piscar os olhos? Um minuto, dois? E isso é já uma eternidade. Não será o piscar de olhos, por mais breve, uma interrupção do teu plano contínuo? Como sabes que não é essencial precisamente esse micro-segundo de realidade que perdeste enquanto os teus olhos piscaram? Há coincidências no universo, como a colisão das estrelas que vão gerar os planetas. Um planeta que nasce porque, na vastidão infinita do espaço, dois corpos celestes, mínimos no seu tamanho face à dimensão total, coincidentemente colidiram entre si são uma tremenda coincidência com efeitos devastadores. A mesma coincidência pode acontecer entre a realidade do que observas e a realidade da tua anatomia que se desencontram quando piscas os olhos, precisamente nesse micro-instante, fazendo-te assim perder o que de mais importante se passou...

A verdade que Bazin não quis enfrentar é que, por toda a parafernália de elementos exteriores incontroláveis e imprevisíveis, o verdadeiro plano contínuo sem interferências ou influências de outrem para o espectador é uma impossibilidade.

Qualquer ponto de vista, por estar incluído num universo vivo e em movimento habitado por elementos vivos em movimento está inevitével e invariavelmente condicionado por outrém e a nossa opinião não será mais pura ou mais nossa se não contiver a manipulação de um corte.

Long shot ou montage têm o mesmo grau de manipulação, no sentido em que ambos são fruto de uma visão e intenção pessoal que o autor nos dá e que é através disso que nos é dado que podemos nós tirar uma interpretação nossa. E a partir do momento em que a tenhamos tirado, independentemente de onde se tirou, a nossa opinião sobrepõe-se: o espectador é o último criador. E o último tem a palavra final. Essa é aliás a manipulação por excelência: a da interpretação de cada subjectividade. Porque todo o olhar manipula. Por isso é tão perigoso olhar um espelho.

Foi com tristeza, por certo, que Bazin confrontou o seu fantasma da manipulação.

publicado por Miguel João Ferreira às 08:51
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