Sofro de opinião crónica. Felizmente só me acontece uma vez por semana. (Este anacrónico cronista crónico escreve de acordo com um desacordo com o novo acordo ortográfico) SAI AOS DOMINGOS!
21 de Outubro de 2012

Dizem-me na hora das derrotas que o Poder é grande e, perante ele, a vitória é utopia da imaturidade.

Preocupados, aconselham-me a, como eles, ceder, escolher outras vias de passividade, hipocrisia, subserviência amorfa e homogeneizada, para realmente me integrar no conjunto e poder pertencer à elite que eles são, não de vulgo, é certo, mas de vulgaridade.

Com palavras meigas, velando outras palavras, explicam-me que a resposta e o confronto, a cabeça erguida e as expressões de orgulho, são o fraco do forte da minha personalidade.

Provam-me por a+b que o silêncio é precioso e táctico e que inconformar-me revela falta de inteligência emocional.

Asseguram-me, como se fosse um segredo de mestre para discípulo, que ao indiferente nada é indigno (nem sabe como tal) e que tenho apenas de aprender esse dom.

Acusam-me de ter uma sensibilidade comprometida com as sensações cutâneas e empíricas e não com um raciocínio efectivamente cerebral.

Gravemente, lentamente, sussurram-me este aviso:

Cuidado, Miguel, tu não podes ganhar. Aprende a aceitar o que há.

E devo aceitá-lo, explicam-me com paciência, porque não posso fugir do que me rodeia. E explicam-mo enquanto me rodeiam.

Às vezes, quando se vêem com tempo, trazem-me esboços que fizeram da simplicidade da sua aceitação. No fundo tudo depende do cumprimento de umas pequenas regras, de uns preceitos, de uns gestos, de uns códigos de conduta que não precisam de decifração, apenas de obediência.

Compreender é fútil, basta executar. A compreensão pede sentido crítico. E como pode, à prática comum, servir a crítica ou a busca de um sentido? Não há sentidos de significados que devam entender-se, só sentidos de direcções que se devem seguir.

Porque ganhar no sistema é aceitar o sistema, alimentar o sistema, viver o sistema, defender o sistema, respirar o sistema, não questoinar o sistema.

Mas o que é o sistema? Que entidade abstracta é esta a que tudo obedece como se fosse um Deus?

É o sistema!, queixam-se os falsos inconformados, vocês sabem do que é que eu estou a falar!, denunciam com uma vagueza de conteúdo e expressão. E todos sabem de que é que ele está a falar, porque ninguém sabe nada. É o sistema, é claro. Aquela coisa abstracta a que toda a gente obedece e que ninguém consegue identificar. Como a religião também é um sistema. O crente obedece ao seu sistema e pode até rezar-lhe mas não lhe faz perguntas. E quando as faz deve logo arrepender-se, porque o que é grande não se questiona. É o mistério que o torna grande. Questionar é desmistificar. Como pode ser grande se lhe tiro o mistério?

Sem o espanto Deus era um homem ou uma ideia que se lembra e esquece. Sem o espanto, Sansão era um homem como nós, talvez um pouco mais alto, mas um homem, igualmente mortal, insatisfeito, entediante.

Mas é preciso acabar com o espanto. E com todas as abstrações e metafísicas. É preciso sair do sistema para ver que, como Deus, como o espanto, o sistema é criado como ideia por outras pessoas como nós. E como um boato ele cresce numa grande mentira em que todos começam a acreditar e que todos alimentam despreocupadamente, ignorantemente, estupidamente, como os velhos que alimentam os pombos nos bancos de jardins e depois se perguntam de onde vem a praga, de onde vem a merda que eles cagam das árvores.

Há tantos anos que os sistemas dos homens são merda que nos cagam das árvores das nossas imaginações! Há tantos anos que lamentam a opressão do que inventam mas não deixam de inventar opressões!

Porque é precisa uma ordem, explicam, é precisa uma organização comum... De outro modo, como conter toda a gente? Como viver em comunidade, sem moral, sem justiça, sem etiqueta, sem gestão, sem dinheiro? Como ter pão para comer, água para beber, roupa para vestir, o corpo lavado e perfumado, a casa limpa, o jardim florido, a mulher incompreendida e os filhos neglegenciados com que nos perpetuamos infinitamente? Porque toda a espécie pode entrar em extinção, o tigre da Malásia, o panda dos Himalaias, o lince da Malcata... O homem, não.

E sem ordens não há diálogo. Não há comunidade. Não há sobrevivência. Felizmente temos a ordem e a guerra e a fome e a miséria e a austeridade e a avareza e a corrupção e a maldade e a mentira e a destruição.

Felizmente somos humanos. E temos moral nas casas de misericórida onde as crianças são violadas pelos padres; e justiça nas prisões onde os culpados se tornam monstros e os inocentes culpados; temos etiqueta que nos artificializa em objectos bem sem conteúdo mas com consoantes duplas no bilhete de identidade, operações de charme nas caras plásticas e quintas de muitos acres e contas endividadas onde se fazem festas para inglês ver. Felizmente temos gestão nas economias dos ricos à custa das maiorias, gestão nos despedimentos em massa, gestão nas 8 e 9 e 10 e 11 horas de trabalho pagas ao cêntimo a preço de escravo; temos dinheiro que é papel e metal que se rasga e derrete, que sem valer nada vale qualquer sacrifício e a traição, o crime, o despeito, a inveja...

Felizmente temos os nossos sistemas que nos dão tudo não nos dando nada.

Por certo, sem um sistema de organização comum, sem governos, sem fronteiras, sem credos, sem etiquetas e morais, não seria possível cultivar a terra. A terra está viva. É uma entidade. É a Mãe-Natureza, não uma mãe qualquer. Imediatamente se aperceberia que não havia sistemas e recusar-se-ia a dar fruto. Certamente, sem sistemas, a terra seria estéril. Sem sistemas, o céu deixaria de chover. O sol deixaria de brilhar. Os homens perderiam a capacidade da fala. Não temos um sistema, explicariam por gestos, por desenhos. Já não podemos ser civilizados, maduros, compreensíveis. Como vamos agora comer, beber, vestir-nos, lavar-nos, aprender, construir, criar? Os sistemas foram a nossa melhor criação, sem eles, somos bichos como os outros bichos. Seria impossível!

Mas neste ponto já nem se entenderiam para explicar que não se entendiam. Cá está, faltaria o sistema.

Eu tento ouvir o que os outros me dizem. Mas quanto mais tento, menos compreendo. Todos os conselhos são para mim abusrdos. Todas as organizações me parecem nada. O que os outros dizem não me tem explicação.

O boato espalhou-se. Todos acreditam na mentira e convencem-se de que não podem viver sem ela. A mentira que começou com o que os outros dizem. Ninguém sabe quem começou o boato. Por isso deve ser verdade. Por isso deve ser divino. Sem sistemas, dizem ainda, tudo seria o caos.

Mas o que é o cãos? Apenas uma organização natural, aleatória. E o que é a ordem? Uma organização artificial arbitrária.

Prefiro o natural. Naturalmente, uma escolha arbitrária, que nada tem de aleatório.

Imagina agora que se começava outro boato; e que o boato era revolução. A revolução das mentalidades. A revolução do teu modo de pensar. A revolução contra a obsessão pela ordem. Imagina... E se for verdade?

publicado por Miguel João Ferreira às 14:41
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