Sofro de opinião crónica. Felizmente só me acontece uma vez por semana. (Este anacrónico cronista crónico escreve de acordo com um desacordo com o novo acordo ortográfico) SAI AOS DOMINGOS!
07 de Outubro de 2012

Brighella é dono de uma taberna e bebe mais do que vende. Muitas vezes falei com ele e perdi. Não sei de ninguém que use tanto a palavra como quem usa um punhal. Quando Macbeth perguntou: "Is this a dagger I see before me?", não pensava em delírios mas na violência do síndroma de Brighella, isto é, dos verbos e substantivos que lhe cruzavam a mente com ideias roídas de desejo e de culpa.

Brighella, porém, não sente culpa; porque Brighella não é um carácter trágico; e não é trágico porque não tem consciência. Inspirador do Figaro de Beaumarchais (que depois inspirou Rossini e Mozart), Brighella é o protótipo medieval/renascentista de Dean Moriarty, o con artist de On the Road de Kerouac. Enganar é uma arte.

O Egoísmo uma necessidade moral, movida pelo instinto da boa sobrevivência - que não é o mesmo que mera sobrevivência.

Como um camaleão social, Brighella transmuta-se em qualquer coisa e é capaz de reproduzir qualquer sentimento, não apenas para que não o cacem (ou para caçar), mas para dos seus actos retirar um proveito que, indo além da mera perspectiva de um ganho, represente, efectivamente, um grosso lucro.

É pai de todos os truques (que terá aprendido com o Diabo) e filho da Sociedade (que o gerou de si mesma).

Romântico, reinventa o romantismo, deixando-lhe, como Sade, o perfume insaciável da luxúria. Ser romântico será assim, na óptica deste ser ardiloso, rasgar as roupas da mulher que deseja e, sem cerimónias, morder-lhe vorazmente a carne.

Também ele sabe dividir para reinar; de acordo com alguns, mais informados, foi este personagem diabólico que inventou a expressão idiomática. O método é o da briga, claro está, daí o seu nome. Planta o mal, deixa-o crescer, mata alguém, culpa um outro, e leva, no fim da luta, os pertences dos contendores.

Brighella é o anti-herói perfeito, que faz rir quem nele se retrata. Num momento ou noutro todos o imitámos; mas, como é obvio, estavamos sempre a brincar.

Nunca, tal e qual as crianças, cometemos maldades a sério. Por isso mesmo Brighella é uma máscara... 

publicado por Miguel João Ferreira às 14:31
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