Sofro de opinião crónica. Felizmente só me acontece uma vez por semana. (Este anacrónico cronista crónico escreve de acordo com um desacordo com o novo acordo ortográfico) SAI AOS DOMINGOS!
30 de Setembro de 2012

"Exmo. Sr. Dionísio Fortes,

 

Foi com um enorme prazer que recebi a sua carta pedindo a minha opinião (e digo “opinião” por não ousar usar o seu elogioso “ensinamento”) sobre o que para mim é a “Arte” e o que é a “Estética”.

Começo como se pede nestes casos: objectivamente. Isto é, com uma asserção basilar:

É estético o que suscita o desejo. Ponto.

A Estética, caro Fortes, é, a meu ver, a Disciplina da Voluptuosidade.

A Arte é indiscutível, indubitavelmente adogmática; e o dogma que agora estabeleço não está na Arte, mas fora dela, e é de fora dela que eu o constituo como parte integrante de si, isto é, da Arte.

Mais claro: os frutos da árvore que ela é podem cobrir-se de propósitos universais, mascarar-se, talvez, de Humanitários; podem dar-se, alugar-se, vender-se, apelar às massas; mas quem os morde e os sente, o sentido que têm ou não têm, o agradável ou repelente que suscitam, o conforto ou o asco, o belo ou o feio são sempre de um único homem, isto é, o juízo de um particular. Poderá até o meu amigo procurar impor-lhe uma apreciação, um valor, promover esse juízo no quadro da importância social; poderá, se lhe aprouver, dar-lhe um estatuto de lei ou incuti-lo como elementar na sensibilidade amorfa e homogeneizada do padrão social de Bom e de Belo e talvez até (grave ofensa à Arte) de Moral. Mas não pode, prezado Fortes, não pode, além da máscara social, controlar a reacção do indivíduo perante aquilo que vê.

Uma música que ouça em não sei que espaço e queira ter composto você mesmo; umas colunas de não sei que templo, cuja imponência apele ao seu desejo de as ter como parte material da sua porta; um quadro de não sei que cores, que anseie para enfeite das suas paredes brancas, para aplacar a palidez quotidiana; uma mulher, cujas formas o deixem inebriado… todas essas faces da volúpia têm, na hora do desejo, toda a Filosofia, toda a Moral, toda a Estética que suporta e até de que precisa! Todas essas formas e sons e coisas e pessoas, se as quer, se despertam com frémito o seu desejo de posse, são, meu amigo, e repito-o, são, sem dúvida, Arte, Arte, na sua forma mais essencial! E hão-de sê-lo até que enfim se farte, e tudo volte, de novo, a ser banal…

Não consigo, por agora, e também porque esta semana tenho andado fragilizado e febril, adiantar-lhe argumentos mais válidos para sustentar um parecer tão modesto. Permita-me, não obstante, dizer-lhe que, se ele é débil à vista de um olhar académico, está profundamente enraizado nas minhas convicções e, nesse sacrário de ouro das minhas crenças e dos meus pensamentos, não sei de coisa mais irrebatível.

Sem mais com que o mace e abraçando-o com amizade e respeitosos cumprimentos à sua amável esposa,

Muito seu,

J.B."

 

publicado por Miguel João Ferreira às 17:13
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