Sofro de opinião crónica. Felizmente só me acontece uma vez por semana. (Este anacrónico cronista crónico escreve de acordo com um desacordo com o novo acordo ortográfico) SAI AOS DOMINGOS!
23 de Setembro de 2012

Porque me escreves ainda? Porque mandas o criado com bilhetes, como quem faz que telefona se estivesse num século em que isso fosse possível? Porque mandas mensagens que não dizem nada a não ser perguntar se estou disponível para te ouvir ou ler a dizer senão nada?
Se tens alguma coisa a dizer di-lo, em vez de fingires que não podes porque não te respondo, porque não te ouço, porque o gato te comeu a língua ou o cão te comeu o gato ou o diabo te comeu o cão e esfregou o olho.

Se não te respondo, se não te ouço, se o gato te comeu a língua ou o cão te comeu o gato ou o diabo te comeu o cão e esfregou o olho, tu sabes porque não te respondo e porque não te ouço e porque te comeu o gato a língua e o cão o gato e o diabo o cão e esfregou o olho!

Sabes que não te respondo e não te ouço e que o gato te comeu a língua e que o cão te comeu o gato e que o diabo te comeu o cão e esfregou o olho porque não mereces que te responda e que te ouça e que o gato não te coma a língua e que o cão não te coma o gato e que o diabo não te coma o cão e não esfregue o olho! E sabes que podes sempre dizer qualquer coisa, querendo realmente dizer qualquer coisa, em lugar de fingires que não dizes nada porque não sabes muito bem que dizer. E se não sabes muito bem que dizer quer dizer que não há nada a dizer. E se não há nada a dizer, porque finges ter alguma coisa a dizer e ficar ressentida porque não te respondo e não te ouço e o gato te comeu a língua e o cão te comeu o gato e o diabo te comeu o cão e esfregou o olho?

Se não me dizes o que queres dizer e apenas me perguntas se estou lá para responder ou ouvir ou impedir que o gato te coma a língua ou o que o cão te coma o gato ou que o diabo te coma o cão e esfregue o olho então é porque não tens nada a dizer-me ou porque o que tens a dizer-me de nada vale e então mais vale que não te responda e que não te ouça e que o gato te coma a língua e que o cão te coma o gato e que o diabo te coma o cão e esfregue o olho! Porque afinal, que vou eu impedir?

Nunca fui herói de coisa nenhuma, muito menos o teu, muito menos o meu nem tenho planos para me tornar um herói e para te responder e ouvir quando precisas, e para te proteger de todos os gatos e de todos os cães e de todos os demónios que vêm ter contigo a esfregar o olho! (E fi-lo, ainda assim tantas vezes!)

Nunca fui um romântico! Não sei ser romântico. não nasci no tempo da távola redonda, não acredito nos cavalheirismos, nem nos heroísmos, nem nos outros ismos, abomino as pessoas, acho o altruísmo uma capa do egoísta hipócrita e a tua tristeza uma capa da tua indiferença, da tua incapacidade de deixar de teimar em não ser outra coisa que não o erro constante com que te repetes. Se pelo menos, dissesses qualquer coisa que pudesse valer qualquer coisa! Mas tu não dizes nada, nunca dizes nada ou tudo quanto dizes quando dizes alguma coisa não vale coisa nenhuma porque nunca tens nada a dizer! Nada que valha alguma coisa, pelo menos. Ou se calhar sou eu que não valho nada, o que nos leva exactamente ao mesmo ponto:

Isto e o que tens a dizer e o que teria a ouvir se te respondesse e te ouvisse e o gato não te comesse a língua e o cão o gato e o diabo o cão e não esfregasse o olho, não vale nada. isso mesmo: o que tens a dizer, no caso de teres alguma coisa a dizer, não vale nada.

Se valesse a pena o que quererias dizer (se o quisesses), se não estivesses a fingir querer dizer o que não tens para dizer-me, não estaria a ter de dizer-te que não vale a pena fingires que mo digas quando apenas queres dizer-me que queres dizer-me o que não me dizes porque insistes em não dizer nada senão queixar-te que não te respondo e não te ouço e que o gato te comeu a língua e o cão te comeu o gato e o diabo te comeu o cão e esfregou o olho.

Então, porquê chatear-me a responder-te, a ouvir-te, a impedir que… etc.?

Vai à merda!

E quando acabares, vai à merda. e quando pensares em voltar, vai à merda. e fica por lá. na merda. onde tens o hábito de me pôr com a merda que fazes. Merda para ti e para a tua imbecilidade crónica. Porque insistes em maçar-me com coisa nenhuma, em falar se não queres dizer nada? Não queres dizer não digas. Mas não finjas que dizes para continuares calada.

O mais insuportável na tua estupidez é que mesmo para estupidez é insuportável. Tu és insuportável. É evidente, eu sou mais, mas não estamos a falar de mim. Não podemos falar de mim, porque já é público que sou uma besta. Insuportável.

E, no entanto, queres que te responda. Não, não te respondo. Não te ouço. Não impeço que o gato te coma a língua e que o cão te coma o gato e o diabo te coma o cão e esfregue o olho! Não mereces que te responda e que te ouça e que impeça que o gato e o cão e o diabo e o olho! Não mereces! Ou não o mereço eu o que é o mesmo e serve o mesmo propósito de impedir que me canse para coisa nenhuma.

Repito, que fique claro: Não te respondo, não te ouço, não te protejo, não impeço que o gato e o cão e o diabo e o olho! E isto que vês não sou eu a responder-te e a ouvir-te e a proteger-te do gato e do cão e do diabo e do olho. E não sou eu que falo contigo: é a tua estupidez a supor que falo contigo quando não falo e sou eu a dizer-te coisas, como fazes, sem dizer absolutamente nada, como fazes.

Ainda bem que és estúpida. Assim não te ressentes com isso. Com isso de eu não te responder e não te ouvir e de o gato te comer a língua e de o cão te comer o gato e o diabo te comer o cão e esfregar o olho… Com isso de seres idiota e de precisares de mim para o saberes de facto. E de eu precisar de ti para coisa nenhuma que não seja dizer-te que és idiota. E de não precisar de ninguém para saber que o sou.

Pelo menos eu sei que não há nada a dizer. As palavras esgotaram-se. Agora restam só os insultos que, segundo a moral, não são palavras: são indecências.

Mataste tudo. Matei tudo. A indecência é o que sobrou de nós os dois.
Estás a chorar? Não chores. Porque finges que choras? São só lágrimas e, como tu, nem são verdadeiras. 

Se choras, esfrega o olho. E vai para o diabo.

Eu já lá estou.

publicado por Miguel João Ferreira às 18:23
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