Sofro de opinião crónica. Felizmente só me acontece uma vez por semana. (Este anacrónico cronista crónico escreve de acordo com um desacordo com o novo acordo ortográfico) SAI AOS DOMINGOS!
02 de Setembro de 2012

Um copo de whisky é razão que baste para pensar em suportar mais um dia. Há algo na decadência inegável do álcool que te dá vontade de experimentar tudo outra vez. O chefe que grita ordens que não sabe cumprir, a mulher que te grita queixas que ela não entende, os filhos que te gritam revoltas que não são as suas, os vizinhos que te gritam culpas do que não fizeste.

Um copo de whisky e o chefe e a mulher e os filhos que nem interessa se tens ou se são teus e os vizinhos que te desprezam com um desprezo mútuo desaparecem todos num ápice. E o dia seguinte é uma perspectiva encantadora de passar por tudo outra vez, com variantes mais apelativas.

Um copo de whysky e a felicidade é possível. Se eu não fosse alcoólico quereria sê-lo. Como não sou alcoólico escrevo sobre a perspectiva de o ser com uma nostalgia própria de quem tem saudades do que está para vir. Se eu fosse alcoólico não poderia escrever sobre o encanto de se ser alcoólico, porque não há qualquer encanto em ser alcoólico e, sendo alcoólico, não saberia sequer o que o encanto é: um engano terrível. Ou seja, estaria encantado com o ser alcoólico sem o saber que o estava e continuando a procurar o encanto no álcool. 

E talvez o maior charme do álcool seja mesmo esse: fazer-te continuamente procurar algo que já tens e de que, por isso, não precisas, como se o não tivesses e precisasses de o ter. Nesse aspecto será justo dizer que o álcool é tal como a vida. Já tens o milagre da vida. Vives. Respiras. Mas faças o que fizeres permaneces descontente e continuas a procurar o milagre de viver melhor.

Se o álcoolismo não fosse uma doença crónica, eu quereria beber até esgotar o corpo. Mas o álcool é uma doença crónica. E a vida é uma doença crónica. E eu vivo, todos os dias, exaustivamente, até me esgotar.

E porque não suporto mais o esgotamento irracional das minhas forças, bebo, tanto quanto posso e mais do que posso, na esperança de que ao fazê-lo possa sentir-me mais vivo do que me sinto vivendo e menos exausto de pensar e sentir a vida que tenho e faço. E o que tenho e faço é coisa nenhuma. Então porque me custa pensá-lo? E senti-lo? E vivê-lo? Porque será que viver o que não vivo me cansa tanto e me leva tanto a beber tanto o que me sabe tão mal e tão bem por me saber tão mal? 

Porque há algo na nossa decadência que é fascinante.

Há algo no amargo que é doce.

Há algo na dor que te dá prazer, que te conforta mais que um abraço ou um beijo.

Quando na vida vês o sol e sorris, e vês as flores e dizes que são belas, e te deitas com uma mulher nua e estás dentro dela e te vens e descobres que a vida é perfeita, descobres afinal que a vida não tem perfeição nenhuma, que toda essa luz, toda essa beleza, todo esse prazer são tão breves, tão insignificantes que valem coisa nenhuma. E o descobrires quanto valem (que é nada) dá-te um vazio maior do que o que tinhas antes de saber que essas breves interpretações da felicidade possível existiam.

Mas a dor, mesmo quando passageira, mesmo quando não a sentes, mesmo quando te leva à mais excruciante e abominável decadência, manifestação eloquente do teu permanente desejo de auto-destruição, da tua razão intelectual de existir a lutar contra o teu instinto de sobrevivência, a dor é sempre real, é sempre contínua, é sempre a certeza, a única que tens, de que realmente estás vivo.

O institno de auto-sobrevivência é uma armadilha de Deus. Um condicionante biológico implantado nos teus neurónios, nas tuas células, no teu adn, para que possas continuar a adorá-lo. E quando, não te querendo matar, perdes a fé, ele vinga-se matando-te com dúvidas:

Que sentido há nisto?

Que estou aqui a fazer?

Porque quero existir ainda?

E porque sabes que não queres, bebes. No fundo é como se vivesses. Mas o álcool dá mais resultado. E nunca te desilude, como os outros.

Ah, e o amargo do whisky… O amargo é o único sabor que me sabe a doce. 

Se tu fosses amarga…

publicado por Miguel João Ferreira às 20:48
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