Sofro de opinião crónica. Felizmente só me acontece uma vez por semana. (Este anacrónico cronista crónico escreve de acordo com um desacordo com o novo acordo ortográfico) SAI AOS DOMINGOS!
26 de Agosto de 2012

O que realmente faz uma tragédia não é o acontecimento trágico em si, mas o modo como lidamos com ele. Isto está bem ilustrado na prancha nº152 de Little Nemo in Slumberland de Winsor McCay (1905-1914).
Quando Flip diz a Little Nemo que já não pode rever a princesa e voltar a Slumberland - destruída pela Aurora como represália pela expulsão de Flip, seu sobrinho, da Terra do Sono -, Nemo fica tão desgostoso que se afoga em lágrimas. 

Winsor McCay, para quem a exploração imediata do inconsciente é mais importante do que uma boa trama ou um bom diálogo, aproveita de pronto a sua própria deixa para tornar a expressão literal: as lágrimas de Nemo correm numa torrente que se transforma em dilúvio e a casa onde o herói vive com os seus pais parece uma arca vogando no desespero, à espera de ancorar no monte Ararat da tranquilizadora realidade. 

O cenário apocalíptico desenhado por McCay é visualmente extraordinário; mas o mais interessante no decorrer da hecatombe é assistir às reacções de cada personagem:

O pai, moralista e cívico, repreende Nemo: "Look Nemo, your tears have flooded the whole town!".

A mãe não perde a consciência social: " Oh, what will the neighbours say?!" - porque uma imagem vale mais do que mil qualidades.

E Flip, catalizador da desgraça, atravessa três fases:

Primeiro é a voz da razão, quando adverte (temendo pela vida): "stop weepin' or we'll drown!"

Depois, a voz do conformismo, com aura de presságio: "A lake of tears an' a big storm coming!".

Porfim, quando Nemo pára de chorar e começa subitamente a rir (ao ver como Flip se debate para sobreviver à intempérie), é a voz da indignação e do pânico: "This is no time to laugh! This is no time to laugh! This is were I begin to bawl!"

As três fases de Flip representam a voz popular: 

Quando algures se despoleta uma tragédia, a tendência humana imediata é recorrer às lágrimas; quando, na verdade, as lágrimas são por norma o alimento dessa mesma tragédia. 

O lamento ou o luto surgiram como forma de o indivíduo, no conjunto, purificar emoções e prestar homenagem às vítimas de um acontecimento nefasto. Mas talvez seja hora de mudarmos o modo como lidamos com as nossas contrariedades.

O que a prancha de McCay nos sugere é que talvez seja precisamente nesses momentos trágicos que, ao contrário do senso-comum, mais sentido faz rir. Como Nemo.

Quando nemo começou a rir, livrou-se da desgraça e chegou a porto seguro. Da mesma forma que é rindo que, em Bedknobs and Broomsticks (Se a Minha Cama Voasse), os heróis conseguem manter a cama no ar. Ou que Dorothy e os seus amigos sobrevivem a Oz ("Ha ha ha, ho ho ho!"). Ou que Alice se protege do absurdo de Wonderland. Ou que Peter Pan, Wendy e Cª voam para a Terra do Nunca.

Seja qual for o exemplo, a ficção do inconsciente diz-nos como devemos lidar com as tristezas. Mas a nossa consciência moral e a necessidade narcisista que temos de receber conforto levam-nos sempre ao Muro das Lamentações.

Ao contrário das narrativas mencionadas, McCay não tem uma grande história; mas criou um universo extraordinário onde cabem todos os sonhos. E, como Nemo, embarcando 20.000 léguas nas profundezas de nós próprios, perdemo-nos lá dentro.

É aí que aprendemos mais.

publicado por Miguel João Ferreira às 16:34
Fiquei cheia de curiosidade de conhecer o Nemo e o seu criador.
Antígona a 28 de Agosto de 2012 às 21:03
É uma obra de referência da banda desenhada. A trama é fraca, os diálogos também e têm muitos traços da moralidade, xenofobia e racismo do seu tempo e espaço - EUA do início do século XX - mas é visualmente extraordinária e explora de forma notável o universo dos sonhos, do surrealismo e do inconsciente. Faria as delícias de Freud e de Magritte, Dali e seus pares. Estes últimos, apesar de (ou por) serem contemporâneos, não conheciam uma obra publicada em periódicos do outro lado do Atlântico e pertencente a uma arte que, ainda hoje, tem sérias (e injustificadas) dificuldades em ser considerada nobre.
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