Sofro de opinião crónica. Felizmente só me acontece uma vez por semana. (Este anacrónico cronista crónico escreve de acordo com um desacordo com o novo acordo ortográfico) SAI AOS DOMINGOS!
04 de Março de 2012

Tenho vindo a observar uma constante que representa um fenómeno curioso:

 

Contrariamente às previsões mais razoáveis, o homem comum gosta de se confessar. Tem, no entanto, e aqui está a maior curiosidade, a tendência estranha de confessar o que não fez ou não é.

 

Por exemplo:

 

"Confesso que não sou invejosa"

 

Diz, em citação, estrela de novela a revista cor-de-rosa. Com certeza, leitor, já foste testemunha deste tipo de confissão.

 

Outras variantes são:

 

"Confesso que nunca me droguei"; ou "Confesso que não gosto de chamuças".

 

Se o confessado arrisca uma afirmação, não vai além de uma trivialidade:

 

"Confesso que me descai parte do estômago quando faço a dança do ventre"; ou “Faço uma confissão. São poucas, seis ou sete, ou nem isso, as pessoas com as quais, ao longo da vida, verdadeiramente me incompatibilizei".

 

Nestas situações, lidamos, bem se vê, com confissões de feira, em que o alegado arrependido não busca mais do que obter atenções ou cair em graça. Há, naturalmente, falta de confiança, mas, mais grave, falta de algo significativo a dizer.

 

Este tipo de penitente está a pedir quem o ouça, numa época ingrata em que ser ouvido é um luxo que se paga caro em sessões de apoio psicológico.

 

Há ainda outros casos não menos curiosos nem menos crónicos em que os pacientes simplesmente confessam, assim mesmo, sem complemento directo ou pergunta prévia:

 

- Eu confesso!

- Muito bem, confessa o quê?

- Ah, não, isso agora é cá comigo!

 

Convenhamos, isto não é nada. Podemos até, por exercício estilístico e excesso de generosidade conferir ao verbo, na expressão "eu confesso", um papel intransitivo, com a mesma validade de "a tia morreu"; ou um papel mais activo, de modo que o nosso protagonista passa a ser um inquisidor com poderes de extorsão de intimidades:

 

- O cavalheiro é médico?

- Cirurgião. Cirurgião plástico.

- Aaaaaaaahhhhh!! Digníssimo!

- Deveras... Então e o senhor o que faz?

- Eu confesso.

- Não diga!

- Digo, digo! Confesso e à bruta! Sem veleidades!

- Curioso! E como é que faz isso?

- É simples: todos os criminosos votados ao silêncio são levados à minha presença, onde, por meios convincentemente coercivos, os instigo a contar-me o que sabem e não sabem até admitirem os crimes. O meu método faz maravilhas às taxas de criminalidade.

- Deveras? Digníssimo!

 

Continua a não convencer.

 

E há ainda aqueles que se confessam por terem sido agraciados com uma educação beata; esses surgem a par dos que se confessam porque vivem com medo. Os dois tipos confundem-se.

 

No princípio há uma necessidade potencialmente louvável de expiar as suas faltas. Mas esta noção de que as faltas são expiáveis, está sujeita a uma série de erros. Como este texto procura ser dogmático, os erros são três (como a Trindade, número perfeito para qualquer dogma):

 

O primeiro está no propósito que os move: expiam como quem busca um alívio e não com o intento de alcançar um progresso. Pesa-lhes a culpa e não a mediocridade. 

 

O segundo, é suporem a existência de um elemento sobrenatural, motor e fonte de absolvição.

 

O terceiro (e mais grave) é a ideia de que para alcançar o “Altíssimo” devem recorrer aos serviços de um intermediário. O que nos oferece algo como:

 

- Então meu filho, que mal fizestes hoje? - (o "s" em fizestes explica-se por ser um padre de província que sabe mais latim do que português).

- Ai, sô padre, qu'eu pequei!

- E qual foi a tua falta?

- Ai, que começou por ser de jeito, depois faltou-me o dinheiro, depois vai-se ver é de mulher e agora é de tudo!

- Não, minha besta, o teu pecado! - (Padre de província, como se sabe, perde depressa as estribeiras).

- Ah!, esse!, Bem, sô padre, não tenho esposa, ‘tá a ver...

- Sim, - responde o pastor impaciente, - já mo dissestes...

- Mas tenho galinhas, ‘tá a ver...

- Ah, coirão devasso! - (Pausa para efeito dramático) - Mas vá, desta vez passa. Dois Pais Nossos e cinquenta Avé Marias. Em nome do pai, do filho e anda lá, filho, vais perdoado!

 

Como se vê, usar de intermediário neste tipo de folclore é um pouco como enviar o padrinho para Benidorm para dormir com a mulher na noite de núpcias.

 

Se eu fosse Deus, que agradeço não ser pois deixaria de ser o que quer que fosse, ficaria maçado com esta atitude. Não fica bem a um Deus perder protagonismo.

 

Para evitar estes erros, é preciso saber confessar. Para se saber do que falo, deixo aqui alguns exemplos:

  

“Confesso que estropiei uma velhinha!” Quer a confissão, quer o acto são, neste caso, coisas que sabem bem. Ou: “Confesso que fui eu quem atirou o cocktail molotov para a vitrine da loja O REI DAS MEIAS!” Ou ainda, medida ainda mais proveitosa para a sociedade, “Confesso ter sido o autor do virus que acabou de vez com os blog da Rititi e da Pipoca mais Doce!

 

Isto sim são confissões que se prezem.

 

Feitas as contas, parece-me evidente que a melhor confissão é o silêncio e na dúvida não confesses coisa alguma. Mas se realmente te deparares com a necessidade premente de confessar qualquer coisa, por tudo o que é mais sagrado,  fá-lo em grande!

 

Não sei de coisa na vida que não deva fazer-se em grande.

publicado por Miguel João Ferreira às 22:05
Março 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

mais opiniões
pesquisar neste blog
 
últ.imas opiniões
tens razão beatriz. roubar uma crónica para invent...
em primeiro lugar, agradeço imenso mais uma vez po...
É uma obra de referência da banda desenhada. A tra...
Fiquei cheia de curiosidade de conhecer o Nemo e o...
blogs SAPO