Sofro de opinião crónica. Felizmente só me acontece uma vez por semana. (Este anacrónico cronista crónico escreve de acordo com um desacordo com o novo acordo ortográfico) SAI AOS DOMINGOS!
26 de Fevereiro de 2012

Primeira História: A Política dos Planetas

Com a recente descoberta dos primeiros exoplanetas do tamanho da terra, Kepler 20e e Kepler 20f, estamos mais perto de alargar os horizontes da emigração em grande escala, necessidade absoluta em tempo de crise. Os astrónomos, embuídos de consciência política, pretendem deste modo responder ao apelo do Primeiro-Ministro Passos Coelho, que vê nestas saídas uma solução ideal para regularizar as estatísticas comunitárias do desemprego.

Estes planetas estão, é verdade, a suficientes anos luz da terra para que não possamos chegar-lhes e não reúnem ainda (por força das altas temperaturas, pouca água e reduzida percentagem de oxigénio) suficientes condições de habitabilidade. Mas assim como assim, considerando as condições actuais de Portugal, muitos desempregados vêem com bons olhos esta possibilidade de mudança.

Não foram feitos sobre isto comentários oficiais, nem se consideram, apesar de prováveis, contactos extra-terrestres, cuja existência, nesta altura, já ninguém pode negar. A dúvida, aliás, não é se há ou não há extra-terrestres, mas a que género pertencem:

Ou são tão avançados que não querem nada connosco, ou são tão atrasados quanto nós e nem conseguem chegar até aqui.

Quero apostar no primeiro. se é verdade, como disse Einstein, que só a estupidez é tão vasta quanto o Universo, referindo-se ele à estupidez humana, há uma esperança generalizada de que o "humano" seja exclusivo apanágio da Terra e não uma evidência inter-galáctica.

 

 

 

Segunda História - Fronteiras da Ciência: A Crise dos Clássicos e o Alargamento do Espaço Europeu

Cientistas dizem que a ONU deve coordenar planos para lidar com extraterrestres.

 

Os cientistas defendem mesmo a criação de uma agência especial da ONU para lidar com eventuais contactos com seres de outros planetas. Com isto, pretendem iniciar um “processo adequado baseado em conselhos de peritos sérios e responsáveis” mas temem “interesses e oportunismo” num caso de contacto de extraterrestres. (...). Dizem ainda, “a falta de coordenação pode ser evitada através da criação de um quadro amplo num esforço verdadeiramente global governado por um corpo com legitimidade política internacional”. Mais, "As nações unidas têm já um fórum ideal para lidar com a questão, o Comité Para Utilização Pacífica do Espaço.

A crise, denunciam-no todos os sinais, já chegou à Ciência e nota-se no cientista o esgotar da capacidade criativa (de que, ao contrário do que supõe o senso comum, a Ciência também precisa). Sem mais que inventar, descobrir ou analisar cientificamente, fatigado do microscópio, do telescópio e de outros "'scópios" que tais, o cientista estica a Ciência com a mesma plasticidade com que o jornalista estica a notícia (ou a noção que tem dela), de modo a incluir reportagens sobre a D. Alzira de Feijões-de-Baixo que perdeu a bota onde estava a pensão ou o que Cavaco disse sobre a vitória mais recente de José Mourinho.

 

Da não-economia e não-notícia, evoluímos progressivamente para a não-ciência.

Façamos então um pouco de Ciência:

 

Quem, com seriedade, que não esteja em estado comprovado de alcoolismo, consumo de estupefacientes ou clinicamente louco, pode, sem rir, afirmar: eu vi um extra-terrestre? É evidente que os há: o Universo é suficientemente vasto para albergar mais do que estes miseráveis terráqueos. Mas, se se conclui à partida que o E.T. é substancialmente superior à espécie humana, por que raio se dará ele ao trabalho de vir até à Terra a não ser que tenha o azar de ter um problema na nave?

Ora, numa análise séria da alta improbabilidade de um E.T. ser imbecil ao ponto de se deixar correr o risco de vir aterrar para estes lados, que sentido fará o pedido de comissões e conselhos para a eventualidade de contactos do 3º grau? É evidente que os cientistas em causa não são portugueses, de outro modo depressa se concluiria: Já chegou? Ainda não? Então homem, deixe lá isso! Quando chegar a gente desenrasca-se! - E assim é que deveria ser. De outro modo, é como dizer:

"Vamos criar aqui no Sahara uma comissãozinha de boas-vindas à chuva naquela de ver se chove. E já agora, porque a chuva pode falar outras línguas e diz respeito a toda a gente, criemos também um "corpo de legitimidade internacional", com "peritos sérios e responsáveis"! E vai correr tudo muito melhor.

Francamente! Só expressão "peritos sérios e responsáveis" é já em si de levantar suspeitas. Se pensarmos então em "peritos" sobre algo que ninguém viu, e em "sério" com base no que conhecemos do homem de ciência (leia-se macambúzio e taciturno), e ainda no "responsável" que lhe vamos vendo (que não passa por ser pontual e ter sentido de moda),  é maior ainda a nossa estranheza.

E com certeza, esta comissão de boas-vindas à chuva, porque a chuva vem do espaço (tal como os E.T.s), coordenar-se-ia com o já existente, "Comité Para a Utilização Pacífica do Espaço", medida essencial, não vão os russos e os americanos ensaiar na lua novas versões da guerra fria. Só por precaução (mas não há causas para alarme) convirá recear "interesses e oportunismo". Uma formalidade.

Perguntará o leitor: Ora essa! Porquê?

Naturalmente, respondemos, a medida não afirma a existência - quase mítica (como os E.T.s) - de interesseiros e oportunistas, mas quer apenas salvaguardar (como, uma vez mais, no caso da Comissão Para os E.T.s) a eventualidade da sua aparição.

Em resumo e objectivamente, a verdade é esta: Lavoisier e Newton já passaram à História. O que está a dar no cientista moderno é o saudosismo de Star Treck e Buck Rogers.

 

Numa Era em que se dissipam todas as fronteiras, caiu também aquela que separava a Ficção-Científica da Ciência. Ao lado de Pasteur, Curie, Edison, Einstein, Kepler, Lineu ou Bohr, passaremos a ter nomes como Bradbury, Asimov, Arthur C. Clark, Robert A. Heinlein, Ursula K. Le Guin, Frank Herbert ou Philip K. dick. E essas fronteiras antigas entre a Ciência com e sem ficção são agora anexadas ao cada vez mais comum espaço europeu.

 

Muito em breve a União Europeia incluírá o Senegal, a Namíbia, a Mongólia e a Ilha da Páscoa. Já sem falar da galáxia com 3 sóis que anda ali no cruzamento entre Plutão e Saturno. Durão Barroso não terá mãos a medir. Talvez só com antenas...

 

 

 

Terceira HIstória - O Calimero dos Planetas - Brevíssimo Manual de Astronomia - Efeméride

A 24 de Agosto de 2006, a União Astronómica Internacional decidiu: Plutão já não é planeta.
O que levou a esta decisão?

Plutão está a 4 biliões de milhas do sol, tem uma massa inferior à da lua, 1500 milhas de diâmetro, 300º abaixo de zero e tanta luz quanto o estádio do Benfica em dia de vitória do Porto. Para os que não seguem desporto, nenhuma.

Originalmente perseguido por Sir Persival Lowell sob o hipotético nome "Planeta Z" (Séc. XIX), foi efectivamente descoberto por Clyde Tombaugh, em 1930, um agricultor do Illinois com tantos estudos quanto... um agricultor do Illionois.

Anunciada a sua descoberta, foi rebaptizado por uma adolescente com gosto pelos clássicos (feito conseguido graças ao avô - há sempre um avô nestas histórias), mas o nome escolhido, Plutão (em inglês Pluto), deus romano dos reinos subterrâneos (a que os gregos chamaram Hades - não confundir com hádes, popular recreativo para hás-de), não reuniu consenso (mesmo sendo aprovado), já que Pluto era também o nome dado pela empresa Y (há sempre uma empresa nestas histórias) a determinado laxante de efeitos milagrosos e com o sugestivo slogan: when nature won't, Pluto will!

Ainda se discute, nos sempre bélicos circuitos académicos, se foi o laxante, o deus ou o planeta que inspirou Walt Disney, em 1931 (enormíssima e desacreditada coincidência), a criar o inseparável e canino amiguinho de Mickey, Pluto.

O que se tem como certo é que, 76 anos e milhares de manuais de Ciência depois, há lugar a uma extravagante redefinição planetária e, Plutão, o planeta mais pequenininho da galáxia, subitamente, deixou de existir. Vendo a sua história, até parece destino.

Naturalmente, na rua, choveram cartazes: Give us back Pluto! size doesn't matter!

 

Não importa, uma ova! e a prova está aí: Plutão, que até tem 3 luas, só porque é pequenino, foi discriminado e já ninguém sabe o que é.

A polémica, como convém à polémica, ainda corre, a caminho de seis anos depois. Mas, também como lhe convém, não traz resultados. O que fazer de Plutão? É ou não é?

Jon Stewart, sempre mordaz, resume bem o problema:

We don't care what it is, we just wanna call it Pluto!

(Há sempre uma moral nestas histórias).

publicado por Miguel João Ferreira às 21:15
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