Sofro de opinião crónica. Felizmente só me acontece uma vez por semana. (Este anacrónico cronista crónico escreve de acordo com um desacordo com o novo acordo ortográfico) SAI AOS DOMINGOS!
02 de Dezembro de 2012

- Todos os animais deverão imediatamente juntar-se no coração da Floresta! A reunião... - era urgente, explicava o rato, mensageiro daquelas partes: o leão ia falar sobre um assunto gravíssimo!

O espanto era geral. Que tema poderia dar azo a tanta azáfama? Estaria a Floresta à beira da catástrofe? Caíra um meteorito? Detectaram-se movimentos na placa tectónica? O rio transbordou? O rato do campo não avançou notícias e o da cidade que depois se lhe juntou era demaisado sisudo e oficial para adiantar o que quer que fosse; mas trazia debaixo do braço um grande livro de decretos.

 

O pinguim e a tartaruga dos Galápagos foram os últimos a chegar.

 

- O que é isto, - perguntou a lontra, curiosa e desconfiada - uma Assembelia Mundial? Se o não for, nao os quero cá; se o for, quero saber porquê... Isto é altamente irregular!

Mas um rugido estrondoso deu-lhe outro ponto de vista. Verificando porfim o plenário e o silêncio, constatando que havia quorum que acatesse o seu dictum, o leão princípiou a exposição dos factos:

 

- Meus amigos, antes de mais, muito obrigado por estarem aqui, que sei que muito vos transtorna. O motivo por que vos convoco é apenas este: estamos em crise.

 

- Ooooooooooooooooooooooooohhhh!! - fizeram todos.

 

- Virgem Formiga! - gritou a Formiga Ruiva, - Queimaram-se as minhas provisões!

 

- Em crise! - guinchou a cegonha.

 

- Está a acabar-se a areia? - perguntou o camelo.

 

- Não há bananas? - perguntou o macaco.

 

- Perdeu-se o milho? - perguntaram os corvos.

 

- Já não há gomas?! - sondou uma texuga angustiada.

 

- Gomas?! - inquiriu uma estranheza colectiva.

 

- Ahhhh... Uhhhh... Hum... Pois... quero dizer... gomos!, gomos! Quis dizer gomos!... Que é o que eu chamo aos pinhões....

 

- Mas os texugos não comem pinhões! - Desconfiou mais a lontra, que desconfiava de tudo.

 

- Eu como! - reorquiu a texuga, querendo acabar com a conversa - e tenho o direito de comer o que eu quiser! Ora já viram isto? Humpf!

 

- Silêncio! - gritavam o ratos, tentanto instaurar a ordem - Silêncio! O Rei Leão vai falar!

A contragosto, a Assembleia calou-se.

 

- Como vos dizia, meus amigos - prosseguiu o leão com ar pesado, - estamos em crise... As circunstâncias, as componentes, a conjectura, e infrastructura, a compustura agora descomposta, as dívidas de boa vontade, os juros de perdão de quando não vos comi e podia, enfim... A verdade é que tenho andado com fome...

 

- Ooooooooooooooooooohhhhhhhhhhhhhhhhhh!! - fizeram todos.

 

- Sim, - continuou o leão - tenho andado mesmo esfomeado. E porque as vossas simpáticas oferendas, sendo boas, não são suficientes, vejo-me forçado, perante os roncos miseráveis do meu estômago, a deglutir-vos, meus amigos, pouco a pouco...

 

- Ooooooooooooooooooohhhhhhhhhhhhhhhhhh!! - fizeram todos.

 

- A começar, - prosseguiu - já hoje pelo meu almoço...

 

- Então e como planeias fazer isso?, - perguntou o urso, já a afiar as garras, esperando vender cara a pele.

 

- Ah, não te inquites, meu irmão, que o farei de uma forma muito democrática. Começamos por ir a votos, e depois, se for preciso, sorteamos...

 

- Então e como vamos votar? - perguntou o alce.

 

- Levantamos a pata - respondeu o leão.

 

- Levantamos a pata a quê? Quem diz o nome de um animal? -, quis saber o búfalo.

 

- E quem não tem pata?, - perguntou o robalo.

 

- Aí eu lavo as minhas patas, - esquivou-se logo o leão, - não quero incriminar nenhum dos meus camaradas, nem aceito que depois me incriminem, sob pena de lhes mover um processo... capital...

 

- Mas alguém tem de apontar alguém, se não ninguém se acusa! Como é que fazemos isto?!

 

- Só sei que nada sei! - retorquiu o leão.

 

- Meu Deus, estamos perdidos! - exclamou o cavalo, com ar preocupado.

 

- Que foi?, que foi? - O coelho, a zebra, o cão, o pintassilgo, vários bichos, já, se lhe juntavam, procurando entender tão grave revelação.

 

- Este tipo julga que é o Sócrates. Ou pior ainda, o Passos Coelho!

Em vez de se unirem contra o leão, os animais acharam mais prudente votar uns contra os outros.

Os felinos, os répteis, os insectos e os porcos, vendo o rumo das coisas, tomaram logo o partido do leão e puseram-se a seu lado. Disseram uns quantos nomes, que mais ou menos sortearam e tiveram um banquete farto. A Floresta vai encolhendo e empobrecendo, mas há uns bichos que engordam. A crise de uns é  sempre a festa de outros, isto está claro. Não há crise em mundo algum que não seja intencionalmente provocada. Repito: intencionalmente provocada.

publicado por Miguel João Ferreira às 13:24
25 de Novembro de 2012

depois da estrondosa visita de merkel que afinal nos empobrece porque só nos quer ver felizes, hoje é dia de greve geral. as manifestações multiplicam-se, de bruxelas ao congo. (o congo é um exagero geográfico).

cavaco silva teve o desplante de dizer: "apesar da greve não deixarei de trabalhar". aqui.

a afirmação parece nobre por dois motivos: dá a ideia de que o presidente da república honra a greve, os seus direitos e a importância que tem como forma de protesto (demonstração de um descontentamento colectivo) e ao mesmo tempo faz transparecer que o presidente da república é um homem extremamente responsável, trabalhador e preocupado com os interesses do país: quem está descontente que exerça o seu direito de o estar mas o presidente continua a cumprir o seu papel enquanto tal e a defender os interesses da população.

é o que parece, não é? mas o que parece nobre limita-se a ser escárnio.

seria importante que cavaco silva começasse por explicar aos portugueses em que é que em concreto consiste o seu trabalho e como é um dia na vida do presidente da república. deve ser muito duro.

a frase não é nobreza, é despeito. bem observada, um dos apoiantes da política de austeridade dizer que não deixará de trabalhar apesar da greve é o mesmo que dizer que apesar da oposição que na generalidade se lhe tem feito (ao presidente, ao governo e à austeridade), não deixará de foder os portugueses. a palavra é essa, não há outra.

façam lá a vossa greve, que é qualquer coisa que ainda não podemos impedir abertamente e nós fazemos cá do nosso lado o que temos vindo a fazer. gritem, esperneiem, estejam à vontade. no fim, pagam na mesma. por exemplo, em 2013, já garantido, mais portagens. 40 euros lisboa-porto, é muito pouco. sai mais barato ir a londres de avião, mas londres é londres e é já ali. que importância tem isso?

antónio barreto dizia outro dia em entrevista à sic notícias, com a sua classe habitual (sou, como quase todos, um admirador de antónio barreto), que a liberdade termina quando o protesto assume a forma de violência. em ideia, eu concordo em absoluto com antónio barreto. deixo no entanto esta pergunta:

quando diariamente se sofre a violência física, psicológica e outras no nosso quotidiano (passo o pleonasmo diariamente e quotidiano) deste crescente processo de escravização em massa a que se chama com pompa e circunstância "austeridade" e não há protesto civilizado que valha, e quem produz, vota, faz o país nem sequer consegue confrontar directamente os políticos que o arruínam para proveito pessoal, como conseguir resultados e justiça sem recorrer a qualquer tipo de violência? o 25 de abril que usam como exemplo foi apenas possível porque as forças da ordem, os militares, se revoltaram eles mesmos contra o governo. e revoltaram-se apenas porque estavam a morrer como moscas em guerras que (como qualquer guerra) não serviam ninguém.

numa versão mais simples:

como me defendo pacificamente do homem que me está a bater?

martin luther king jr., ghandi, cristo. três míticos pacifistas (o último mais mítico do que os outros dois) que recomendavam dar a outra face. sem dúvida, lembramo-nos deles. será por terem sido assassinados?

devemos ser mártires para fazer vencer a justiça pacificamente? mas eu gostava de não ter de morrer para conseguir justiça para a minha vida.

agora em espanha mudaram as leis de despejo. a banca congelou os despejos por, se não me engano, 3 anos. a razão? uma mulher desesperada atirou-se do quarto andar quando ia ser despejada. muitas famílias, graças ao seu sacrifício, mantiveram a casa. vou ter de me matar para poder pagar a renda? gostaria de ter mais informações, nesse caso, sobre como funciona o além. preciso de garantias de que terei benefícios - sou, confesso, um pouco materialista nestas coisas.

os muçulmanos têm os bombistas suicidas. dá muito jeito ter pessoas especializadas em auto-sacrifício para benefício dos outros.

com a nossa taxa de desemprego, talvez devessemos começar a formar pessoas para levar a cabo esta ideia: curso intensivo de mártires para o bem comum. bombista exactamente não, que é uma forma de violência e iria incomodar o antónio barreto. mas talvez o saltador suicida, por exemplo, à imagem da mulher catalã (ou era basca?). saltarem todos da ponte 25 de abril. a tvi filmava nos intervalos da casa dos segredos, ainda podia dar um bom espetáculo e em princípio não ia contra os ideiais de não violência de antónio barreto.

é certo que é uma violência sobre o próprio corpo, mas muito mais suavizada. nos dias de hoje, em que só falta legalizar a eutanásia (que até defendo), quase que não é polémico, a não ser claro, que se rebente um prédio inteiro ao jeito da sónia brazão com a agravante da incompetência de nem sequer se matar.

definitivamente, o saltador suicida seria uma boa alternativa de protesto sem violência e com alto grau de eficácia para o futuro de portugal.

o único obstáculo a ultrapassar é ser considerado pecado para a igreja católica. o saltador, durante o seu curso, teria de se converter primeiro ao islamismo para, em vez do inferno, receber no além 40 virgens.

na hora da morte, há que saber escolher as religiões.

publicado por Miguel João Ferreira às 08:56
18 de Novembro de 2012

... É como lhe digo, meu caro... O Homem é um animal de hábitos. A ideia é antiga, claro, não invento nada. Mas se da minha experiência ganhei certezas na vida foram a indecifrabilidade das mulheres e da meteorologia, a inescapabilidade da morte e do imposto, a crueldade bestial dos diabetes e esta coisa que vou agora dizer-lhe…

Confesso, está a deixar-me intrigado.

E tem razões para isso. Sem rodeios, o caso é este: Um homem, qualquer homem, não é o resultado de onde e como nasce mas, depois de nascer, do que lhe dão…

Alto lá, meu amigo! Não aceito! Aos trinta anos você não é um abeto à espera de ser podado! É o que quer, que raio! Explique lá isso melhor...

Permita-me. Não me deixou terminar. Ainda a procissão vai no adro. Noto-lhe alguma ansiedade. Aconselho-lhe este licorzinho de malte. Vai ver que é do bom. Mas dizia-lhe, e peço que não volte a interromper-me, com interrupções de dez em dez segundos nem o Diabo se orienta…

Pronto, pronto, fale lá à vontade!

Obrigado. O argumento é fácil, mas complexo. O meu amigo vai ter de lhe prestar atenção. Estava a falar-lhe das qualidades de um homem e de como estas dependem de como ele evolui. Um homem é o que lhe é dado; e isso de se ser o que se lhe dá é uma amputação da personalidade…

Homem, você vai de mal a pior!

Caramba, tenha paciência! Assim zango-me! Ouça-me até ao fim e depois lá poderá opinar. Isto se ainda tiver argumentos. Que diabo, homem, experimente lá o licorzinho! Ao fim de dois ou três golos começa logo a ouvir-me. E ao fim de me ouvir algum tempo, pelas minhas farfalhudas suíças, vai ver que o argumento até lhe cai que nem ginjas!

Pppfffff...

Está a ver? Já me perdi! Que raio estava eu a dizer-lhe? Ah, isso! Há uma amputação. E deixemos, faça-me a cortesia, este ponto intocável. Ora, suceder isto implica também, à partida, que a natureza das nossas escolhas, que moldarão e se moldarão pelo nosso carácter, estará condicionada pelo ambiente em que crescemos...

Bom, cedo-lhe isso. Nesse ponto está certo.

Agradecido. Vejo que já começou a tomar o gosto ao licor. É escocês. Ora, como é natural, isto é confrangedor…

Efectivamente, meu amigo, isso dói.

Será. Mas dói mais a ironia que contém…

Ironia? Que quer você dizer? Chiça, que efectivamente este licor é do bom!

Com certeza que é. Devia ter mais fé no que lhe digo.

Pois, que realmente, sim senhor! Que belo sumo! Mas ora então o senhor adiantava…

Pois sim, a ironia.

Precisamente, a ironiazinha, o meu amigo estava aí.

Sim. Como eu dizia… Se seguirmos a nossa evolução da criança ao Homem, do estudante ao trabalhador, do inconsciente ao responsável, do ingénuo ao avisado, do ignorante ao culto, do rebelde ao institucionalizado…

Isso mais me parece uma involuçãozinha...

Ora aí está! Vejo que já começa a afeiçoar-se à ideia. O licor já o ajudou a perceber-me. É isso mesmo: se o fizermos, acabaremos por nos confrontarmos com o facto de sermos um animal.

Credo! Também não seja bruto! Um animal?

Isso mesmo, um animal. Uma fera autêntica, que se amansa pelas infindáveis leis da vida, acabando depois, com o cansaço dos anos, por precisar do jugo que se tornou familiar…

Alto e pára o baile! A precisar do jugo?! O senhor está a esticar a corda!

Tenha paciência, homem! Cheire-me esse licor, que já está outra vez a dar-lhe ares! Ouça-me até ao fim esta pérola! Esta minha ideia faria as delícias de Darwin se ainda andasse por cá!

Não duvido, não duvido… Mas então desenvolva antes que eu discorde. O meu copo está quase a acabar! O jugozinho, meu amigo, o jugozinho…

Assim é. Essas correntes da juventude…

Porque ser jovem é estar preso à aprendizagem…

E livre para outras coisas!

 

(Risos)

 

Ora, as correntes foram limadas por anos de habituação, como lhe disse…

Realmente disse-o. Confirmo.

E transformaram-se assim em símbolo de refúgio…

Ahhhh!

A memória distorce-se entre as responsabilidades e as escolhas, fazendo do que era uma vontade uma espécie de tédio, do que era um princípio um exemplo do erro, do que era convicção uma casmurrice, do que era uma crença um devaneio…

Ohhhh!

O que desprezávamos passa a parecer-nos bom; o que evitávamos, desejável; o que nos magoava traz-nos a nostalgia do que pudemos já realizar…

Entendo, entendo! Realmente o licorzinho…

É no fundo como assistir à domesticação de um chimpanzé selvagem, que começa por aprender alguns truques em troca de bananas, para acabar por precisar das bananas por lhe lembrarem os truques que fazia…

Meu amigo, estou convencido! Sem dúvida, é o malte!

- Sem dúvida.

publicado por Miguel João Ferreira às 08:04
11 de Novembro de 2012

Obama vence as eleições e sucede a Obama como novo presidente dos E.U.A.

 

Depois da vasta contestação a obama que foi evidente ao longo de todo o processo eleitoral, era previsível que obama fosse destronado e obama lhe sucedesse.

 

Afastado, Obama não apresentou qualquer discurso cessante e saiu pela porte dos fundos, sério e cabisbaixo, como é normal em quem perde.

Vencedor, obama entra pela porta da frente, cheio de sorrisos charmosos, como é seu hábito e como é normal em quem vence.

 

Os apoiantes de Obama lamentam a sua derrota. Já os apoiantes de Obama celebram a sua vitória.

Os primeiros estão repletos de expectativa em relação ao que o recem-eleito Obama vai fazer.

Os últimos estão repletos de expectativa em relação ao que o recem-eleito obama vai fazer.

Mas acima de tudo, a grande expectativa generalizada é o que é que o recém-eleito Obama vai fazer em relação ao que o recém-derrotado Obama fez.

 

Será Obama capaz de evitar os erros de Obama e levar os Estados Unidos para o patamar tão esperado de consolidação da economia, elminação do desemprego, equalitarização das minorias, das mulheres, das classes?

Será este Obama capaz de pacificar os Estados Unidos e como tal o mundo?

Porque sendo os Estados Unidos a polícia do mundo, o mundo fica mais inquieto sempre que a polícia intervém, como é normal em qualquer circunstância em que a polícia intervém, em particular uma polícia tão bélica quanto a americana, sustentáculo principal da sua economia.

 

Veja-se bem! o sustentáculo da sua economia! em Portugal seria um absurdo a PSP ser o sustentáculo da economia nacional.

Mas os Estados Unidos são como toda a gente sabe e Hollywood nos ensina há muito tempo, um país que está à frente de tudo o resto e de todos os outros: em importância, em vanguarda, em soluções. De tal modo que consegue fazer da sua polícia o grande instaurador da ordem sacra americana, como uma entidade internacional, reconhecida, válida, interconstituinte e, não bastando, sustentáculo da sua economia e até das outras que fatalmente a circundam como os satélites circundam os planetas e os planetas a sua estrela que é o sol.

 

Os Estados Unidos e Obama que sucede a Obama e os representa são pois o luís xiv da contemporaneidade político-social.

Um sol negro não deixa de ser uma ironia para todos os puristas da cor. Mas um sol é um sol porque se chama sol e não importa bem que luz ele dá.

 

Porque Obama não vale pelo Obama que é como Obama não valeu pelo Obama que foi. O que vale é que os satélites populacionais nacionais e estrangeiros que vêm Obama e que viram Obama os vejam pelo que eles representam: a esperança de um mundo e de uma vida melhor.

 

Obama, aliás, como se sabe, projectou muita esperança devido às suas incontestáveis qualidades para causar simpatia. E, como seria de esperar  desiludiu. Contransenso lógico, uma vez que o que se espera já não desiulude, e ainda assim a esperança tem destas coisas.

 

Naturalmente, por desiludir, Obama perdeu as eleições para Obama. Mas o Obama que ganhou as eleições é também ele um ícon de esperança. Talvez não tão intensa nem tão acesa como a que tinha Obama, talvez não tanto sol, mas ainda assim, esperança.

 

De facto, mesmo os que se desiludiram com o Obama derrotado têm esperança no Obama vencedor. Porque como o amor, a esperança transfere-se de um corpo para o outro para permitir às populações seguir com as suas vidas.

A esperança é um deus material.

 

Impõe-se, agora que a febre eleitoral é passado, responder às seguintes questões:

Será Obama capaz de arranjar ainda melhores soluções do que Obama arranjoju para os piores problemas de todos, que são invariavelmente os que têm os Estados Unidos por serem o maior e melhor país de todos?

Será que Obama vai ser mais liberal do que Obama foi? Mais aplaudido? Mais contestado?

 

As perguntas terão apenas resposta definitiva e completa dentro de quatro anos e até lá vão-se respondendo a si mesmas pelas acções do próprio Obama recém-eleito, por meio de episódios e capítulos.

 

Parece-me claro que Obama é, ainda, mesmo em relação a Obama, o melhor presidente, de entre todos os candidatos, que os Estados Unidos podiam ter. Mas o melhor que podiam ter de entre os candidatos não é forçosamente o melhor que podiam ter, nem o que deviam ter, isto é, aquilo de que efectivamente precisam. E aquilo de que precisam, por absurdo que possa parecer, mas assim é a política no mundo, não está em nenhum dos candidatos.

 

Diz-se popularmente, "queres algo bem feito, fá-lo tu mesmo". E ainda assim deixa-se democraticamente a gestão das nossas vidas sociais a um grupo de indivíduos em quem manifestamente não podemos confiar.

A organização social sempre surpreendeu pelos seus absurdos.

 

Não se sabe se Obama se vai portar melhor do que Obama se portou. Se vai ser mais humano, mais prático, mais objectivo, mais justo, mais independente, mais activo. Espera-se que sim, no sentido em que há essa expectativa, mas entre os mais avisados espera-se que não, no sentido em que há essa previsão. Porquê? Porque é esse fracasso que é humano e por ser humano é previsível.

 

E esta expectativa e preocupação com o processo eleitoral americano é comum a todos os países de forma compreensível: porque toda a gente sabe como o resultado das políticas americanas influencia em grande escala o comportamento económico, político e social de todos os países do mundo - o que muito contribui para a contínua arrogância americana: é sabido como os americanos imaginam o seu país como o pai de todas as nações, com a mesma dose de absurdo que a de um recém-nascido que se julgasse pai dos seus pais ou dos seus companheiros mais velhos.

 

Ainda assim, apesar dessa natural preocupação com o destino americano, que se torna também o nosso, apesar do inevitável destaque que tem de se lhe dar porque está longe mas afecta o que está perto, é preciso antes de mais não esquecer o que está perto.

 

E no entanto, esqueceu-se: 

Enquanto a América tremia para saber se Obama venceria a Obama, em Portugal 5.000 polícias, num evento pouco visto e essencial para o desenrolar da nossa vida cá dentro, manifestavam-se diante da Assembleia da Repúbica. Os Média, a olhar lá para fora, dando razão à arrogância americana, ignoraram o acontecimento. Evidentemente. Era trivial:

 

Obama ia suceder a Obama. Haveria algo de mais importante?

 

Portugal é um fait-divers na vida efectiva que é por exclusividade o palco internacional. É uma rama, oh que linda rama!, no grande  bosque europeu, quintal americano.

 

Esqueçamos Portugal, ponhamos os olhos na América:

 

O governo agradece o esquecimento. E a Obama, que agora sucede a Obama, seremos sempre indeferentes.

publicado por Miguel João Ferreira às 08:00
04 de Novembro de 2012

Há quanto tempo já não leio um livro?

 

A literatura inteira perdeu-se na passagem das horas. Folheio as páginas, admiro os títulos, aprecio as capas. Tudo o mais me passa ao lado como ao homem casto é indiferente o desejo.

 

A livraria, mesmo a mais modesta, é para mim um museu.

 

Entro, contente por ser Domingo e eu não pagar a entrada (curiosamente é sempre Domingo numa livraria na minha hora de entrar), avanço devagar para sentir o cheiro do papel prensado e melhor apreciar a decoração, e contemplo, demoradamente, as peças expostas, tendo sempre o cuidado de não lhes mexer.

 

Se estão de frente penso: «Que bonita capa!», mesmo que o não ache. Muitas vezes não encontro meio (por mais que o tente) de estimar aquelas obras em que (apesar do que considero defeitos) outros homens ilustres (com um nome mais sonoro do que o meu) vêem arte. Também me é muito difícil falar delas, por isso, quando me cruzo com algum grupo que as discute profundamente, procuro afastar-me. Se me envolvem na conversa, dou uma desculpa como “estou atrasado, desculpem, gostava muito” e corro para longe como se procurasse a todo o custo apanhar o último comboio.

No entanto, penso comigo mesmo, se esses livros-estátua estão ali, naquele espaço sagrado, e se se encontram expostos com tanto cuidado, é porque uma autoridade (claramente mais douta) os entendeu com um intelecto que eu não tenho e os considerou importantes num universo feito de valores que são, forçosamente, superiores aos meus. Aliás, já por várias vezes tive prova de que os meus valores, quer materiais quer espirituais, são muitíssimo pequenos.

 

De minha conta, pelo menos, não fui feito para negar a autoridade.

 

Por outro lado, se os livros estão por ordem, na sua prateleira, percebo que estão catalogados, e que o modo correcto de estarem é exactamente assim como estão; e mesmo não alcançando a intenção do autor e o critério que o expositor-livreiro escolheu (o que normalmente acontece), considero, um pouco mais alto, para que à minha volta me ouçam e tudo pareça bem: «Que rica lombada! Que ordem! Que perfeição! O artista e o editor estavam embrenhados de rigor estético! E é evidente que o livreiro conhece o seu ofício! É maravilhoso!»

 

E, considerado isto, vou-me embora, agradecendo muito a tolerância e o cuidado aos curadores do museu.

 

Se por acaso levasse alguns daqueles livros para casa, não hesitaria em arrumá-los, na minha sala de estar, exactamente pela mesma ordem; porque sei que se estou em desacordo com alguma coisa largamente implementada é científico que sou eu que estou errado. E se as autoridades se desentendem e contrariam, procuro sempre modo de ter na minha casa espaço para móveis que tenham espaço para cópias exactas dos mesmos livros, tantas quantas as versões das várias autoridades.

 

Por diversas vezes tive de mudar para uma casa maior e quem sabe um dia terei de encontrar um espaço ao ar livre que não seja habitado por ninguém de modo a incluir todas as versões oficiais e críticas de todas as arrumações possíveis e aprovadas de todos os livros que possuo e não leio. Mas fico de consciência tranquila por saber que o meu sacrifício pessoal, justamente insignificante no todo, está a estabelecer, entre as várias autoridades, uma indispensável harmonia.

 

Esta minha forma de estar é no fundo o meu método de abarcar a realidade de um livro e da realidade ela mesma. E sigo esta linha de comportamento porque, para mim, o meu método transmite o consolo agradável de uma calma sensação de segurança, mesmo que esse consolo e essa segurança não sejam mais do que a consequência natural de uma continuada representação de que me acho quase sempre consciente.

 

No fundo, não leio: passo e finjo que leio. Passo e finjo que vivo. Finjo que compreendo. Finjo que sinto como é suposto sentir-se ou finjo que sou realmente capaz de sentir. Finjo que gosto e finjo que gosto de gostar.

 

Numa palavra: finjo; e sinto-me bem com isso.

publicado por Miguel João Ferreira às 18:14
28 de Outubro de 2012

André Bazin (1918-1958), eminente estudioso francês, insistia, no tempo em que podia insistir, que o chamado "long take" (plano de filmagem contínuo, durante vários minutos, sem cortes ou montagem) revela o mundo ao espectador, mas também, para além dele (e era isso que para Bazin era essencial), revela todo o aparato cinematográfico, mesmo que não demonstre claramente que a câmara ou o cenário estão lá, fora dos limites da ficção que compõem.

Para Bazin, devido a essa particularidade epifânica, o "long take" deveria ter primazia sobre, por exemplo, a "montage" eisensteiniana, por dar a liberdade ao espectador de escolher, do plano, o que quisesse, em lugar de sofrer a manipulação da montagem, com características clara e fortemente políticas.

Não posso porém deixar de pensar na ingenuidade utópica da pretensão de Bazin:. Em última análise, a limitação que, por exemplo um Eisenstein imporá ao espectador no seu Outubro (1917), é a mesma que os "long takes" de Orson Welles nos dão em Citizen Kane (1941). A moldura da câmara mostra apenas o ponto de vista do realizador, que nos oferece (ao olho) o resultado das suas próprias escolhas. A isto junta-se a constrangedora limitação da Física ou da nossa realidade, como as dimensões do televisor ou o alcance periférico da vista humana.

Para Bazin, aparentemente, a observação livre é a que não sofre interrupções. Apreender a realidade (ou a ficção) de forma verdadeiramente pessoal é poder recebê-la, seja por que instrumento for, num olhar fixo que acaba apenas quando tiver acabado a extensão do observável. Mas então a realidade apreendida ficará sempre incompleta por ficar sempre aquém da realidade apreensível. Há sempre mais além para ver, mesmo numa terra redonda e não há tempo que baste para ter tudo visto.

Além do mais, a observação ficaria sempre contaminada pelos obstáculos: a núvem que passa diante do objecto que vemos, o pássaro que nos cruza o olhar, o automóvel que atravessou a paisagem. Claro que neste caso podemos dizer que a interrupção não é uma verdadeira interrupção porque faz parte do que estamos a observar. São elementos constituíntes do nosso plano contínuo. Que dizer porém da mão do indivíduo que está na mesma sala que nós que surge inadvertidamente diante do écran? Ou da empregada que foi paga para vir servir as bebidas e só podia passar por frente da televisão, porque o sofá estava encostado à parede? Ou do espirro do espectador ao nosso lado? Ou de um simples piscar de olhos? Porque os olhos precisam de piscar, é uma obrigatoriedade anatómica: quanto tempo consegues estar sem piscar os olhos? Um minuto, dois? E isso é já uma eternidade. Não será o piscar de olhos, por mais breve, uma interrupção do teu plano contínuo? Como sabes que não é essencial precisamente esse micro-segundo de realidade que perdeste enquanto os teus olhos piscaram? Há coincidências no universo, como a colisão das estrelas que vão gerar os planetas. Um planeta que nasce porque, na vastidão infinita do espaço, dois corpos celestes, mínimos no seu tamanho face à dimensão total, coincidentemente colidiram entre si são uma tremenda coincidência com efeitos devastadores. A mesma coincidência pode acontecer entre a realidade do que observas e a realidade da tua anatomia que se desencontram quando piscas os olhos, precisamente nesse micro-instante, fazendo-te assim perder o que de mais importante se passou...

A verdade que Bazin não quis enfrentar é que, por toda a parafernália de elementos exteriores incontroláveis e imprevisíveis, o verdadeiro plano contínuo sem interferências ou influências de outrem para o espectador é uma impossibilidade.

Qualquer ponto de vista, por estar incluído num universo vivo e em movimento habitado por elementos vivos em movimento está inevitével e invariavelmente condicionado por outrém e a nossa opinião não será mais pura ou mais nossa se não contiver a manipulação de um corte.

Long shot ou montage têm o mesmo grau de manipulação, no sentido em que ambos são fruto de uma visão e intenção pessoal que o autor nos dá e que é através disso que nos é dado que podemos nós tirar uma interpretação nossa. E a partir do momento em que a tenhamos tirado, independentemente de onde se tirou, a nossa opinião sobrepõe-se: o espectador é o último criador. E o último tem a palavra final. Essa é aliás a manipulação por excelência: a da interpretação de cada subjectividade. Porque todo o olhar manipula. Por isso é tão perigoso olhar um espelho.

Foi com tristeza, por certo, que Bazin confrontou o seu fantasma da manipulação.

publicado por Miguel João Ferreira às 08:51
21 de Outubro de 2012

Dizem-me na hora das derrotas que o Poder é grande e, perante ele, a vitória é utopia da imaturidade.

Preocupados, aconselham-me a, como eles, ceder, escolher outras vias de passividade, hipocrisia, subserviência amorfa e homogeneizada, para realmente me integrar no conjunto e poder pertencer à elite que eles são, não de vulgo, é certo, mas de vulgaridade.

Com palavras meigas, velando outras palavras, explicam-me que a resposta e o confronto, a cabeça erguida e as expressões de orgulho, são o fraco do forte da minha personalidade.

Provam-me por a+b que o silêncio é precioso e táctico e que inconformar-me revela falta de inteligência emocional.

Asseguram-me, como se fosse um segredo de mestre para discípulo, que ao indiferente nada é indigno (nem sabe como tal) e que tenho apenas de aprender esse dom.

Acusam-me de ter uma sensibilidade comprometida com as sensações cutâneas e empíricas e não com um raciocínio efectivamente cerebral.

Gravemente, lentamente, sussurram-me este aviso:

Cuidado, Miguel, tu não podes ganhar. Aprende a aceitar o que há.

E devo aceitá-lo, explicam-me com paciência, porque não posso fugir do que me rodeia. E explicam-mo enquanto me rodeiam.

Às vezes, quando se vêem com tempo, trazem-me esboços que fizeram da simplicidade da sua aceitação. No fundo tudo depende do cumprimento de umas pequenas regras, de uns preceitos, de uns gestos, de uns códigos de conduta que não precisam de decifração, apenas de obediência.

Compreender é fútil, basta executar. A compreensão pede sentido crítico. E como pode, à prática comum, servir a crítica ou a busca de um sentido? Não há sentidos de significados que devam entender-se, só sentidos de direcções que se devem seguir.

Porque ganhar no sistema é aceitar o sistema, alimentar o sistema, viver o sistema, defender o sistema, respirar o sistema, não questoinar o sistema.

Mas o que é o sistema? Que entidade abstracta é esta a que tudo obedece como se fosse um Deus?

É o sistema!, queixam-se os falsos inconformados, vocês sabem do que é que eu estou a falar!, denunciam com uma vagueza de conteúdo e expressão. E todos sabem de que é que ele está a falar, porque ninguém sabe nada. É o sistema, é claro. Aquela coisa abstracta a que toda a gente obedece e que ninguém consegue identificar. Como a religião também é um sistema. O crente obedece ao seu sistema e pode até rezar-lhe mas não lhe faz perguntas. E quando as faz deve logo arrepender-se, porque o que é grande não se questiona. É o mistério que o torna grande. Questionar é desmistificar. Como pode ser grande se lhe tiro o mistério?

Sem o espanto Deus era um homem ou uma ideia que se lembra e esquece. Sem o espanto, Sansão era um homem como nós, talvez um pouco mais alto, mas um homem, igualmente mortal, insatisfeito, entediante.

Mas é preciso acabar com o espanto. E com todas as abstrações e metafísicas. É preciso sair do sistema para ver que, como Deus, como o espanto, o sistema é criado como ideia por outras pessoas como nós. E como um boato ele cresce numa grande mentira em que todos começam a acreditar e que todos alimentam despreocupadamente, ignorantemente, estupidamente, como os velhos que alimentam os pombos nos bancos de jardins e depois se perguntam de onde vem a praga, de onde vem a merda que eles cagam das árvores.

Há tantos anos que os sistemas dos homens são merda que nos cagam das árvores das nossas imaginações! Há tantos anos que lamentam a opressão do que inventam mas não deixam de inventar opressões!

Porque é precisa uma ordem, explicam, é precisa uma organização comum... De outro modo, como conter toda a gente? Como viver em comunidade, sem moral, sem justiça, sem etiqueta, sem gestão, sem dinheiro? Como ter pão para comer, água para beber, roupa para vestir, o corpo lavado e perfumado, a casa limpa, o jardim florido, a mulher incompreendida e os filhos neglegenciados com que nos perpetuamos infinitamente? Porque toda a espécie pode entrar em extinção, o tigre da Malásia, o panda dos Himalaias, o lince da Malcata... O homem, não.

E sem ordens não há diálogo. Não há comunidade. Não há sobrevivência. Felizmente temos a ordem e a guerra e a fome e a miséria e a austeridade e a avareza e a corrupção e a maldade e a mentira e a destruição.

Felizmente somos humanos. E temos moral nas casas de misericórida onde as crianças são violadas pelos padres; e justiça nas prisões onde os culpados se tornam monstros e os inocentes culpados; temos etiqueta que nos artificializa em objectos bem sem conteúdo mas com consoantes duplas no bilhete de identidade, operações de charme nas caras plásticas e quintas de muitos acres e contas endividadas onde se fazem festas para inglês ver. Felizmente temos gestão nas economias dos ricos à custa das maiorias, gestão nos despedimentos em massa, gestão nas 8 e 9 e 10 e 11 horas de trabalho pagas ao cêntimo a preço de escravo; temos dinheiro que é papel e metal que se rasga e derrete, que sem valer nada vale qualquer sacrifício e a traição, o crime, o despeito, a inveja...

Felizmente temos os nossos sistemas que nos dão tudo não nos dando nada.

Por certo, sem um sistema de organização comum, sem governos, sem fronteiras, sem credos, sem etiquetas e morais, não seria possível cultivar a terra. A terra está viva. É uma entidade. É a Mãe-Natureza, não uma mãe qualquer. Imediatamente se aperceberia que não havia sistemas e recusar-se-ia a dar fruto. Certamente, sem sistemas, a terra seria estéril. Sem sistemas, o céu deixaria de chover. O sol deixaria de brilhar. Os homens perderiam a capacidade da fala. Não temos um sistema, explicariam por gestos, por desenhos. Já não podemos ser civilizados, maduros, compreensíveis. Como vamos agora comer, beber, vestir-nos, lavar-nos, aprender, construir, criar? Os sistemas foram a nossa melhor criação, sem eles, somos bichos como os outros bichos. Seria impossível!

Mas neste ponto já nem se entenderiam para explicar que não se entendiam. Cá está, faltaria o sistema.

Eu tento ouvir o que os outros me dizem. Mas quanto mais tento, menos compreendo. Todos os conselhos são para mim abusrdos. Todas as organizações me parecem nada. O que os outros dizem não me tem explicação.

O boato espalhou-se. Todos acreditam na mentira e convencem-se de que não podem viver sem ela. A mentira que começou com o que os outros dizem. Ninguém sabe quem começou o boato. Por isso deve ser verdade. Por isso deve ser divino. Sem sistemas, dizem ainda, tudo seria o caos.

Mas o que é o cãos? Apenas uma organização natural, aleatória. E o que é a ordem? Uma organização artificial arbitrária.

Prefiro o natural. Naturalmente, uma escolha arbitrária, que nada tem de aleatório.

Imagina agora que se começava outro boato; e que o boato era revolução. A revolução das mentalidades. A revolução do teu modo de pensar. A revolução contra a obsessão pela ordem. Imagina... E se for verdade?

publicado por Miguel João Ferreira às 14:41
14 de Outubro de 2012

Um taxista de Nova Iorque (esta é a versão oficial), escreveu a história de um episódio insignificante que lhe surgiu num final de turno. E sendo insignificante dava um conto, de tal modo é, na sua simplicidade, belo e profundo.

A melhor crónica que escrevi até hoje, afinal não é minha. E nem sequer está escrita em português. Mas fica aqui registada para que outros como eu possam lê-la. Porque a vida, a vida a sério, a que conta, é um conjunto de insignificâncias. Aquele que consegue ser feliz é o deus das pequenas coisas.

 

I arrived at the address and honked the horn. After waiting a few minutes I honked again. Since this was going to be my last ride of my shift I thought about just driving away, but inst...

ead I put the car in park and walked up to the door and knocked.. 'Just a minute', answered a frail, elderly voice. I could hear something being dragged across the floor. After a long pause, the door opened. A small woman in her 90's stood before me. She was wearing a print dress and a pillbox hat with a veil pinned on it, like somebody out of a 1940's movie. By her side was a small nylon suitcase. The apartment looked as if no one had lived in it for years. All the furniture was covered with sheets. There were no clocks on the walls, no knickknacks or utensils on the counters. In the corner was a cardboard box filled with photos and glassware. 'Would you carry my bag out to the car?' she said. I took the suitcase to the cab, then returned to assist the woman. She took my arm and we walked slowly toward the curb. She kept thanking me for my kindness. 'It's nothing', I told her.. 'I just try to treat my passengers the way I would want my mother to be treated.' 'Oh, you're such a good boy, she said. When we got in the cab, she gave me an address and then asked, 'Could you drive through downtown?' 'It's not the shortest way,' I answered quickly.. 'Oh, I don't mind,' she said. 'I'm in no hurry. I'm on my way to a hospice. I looked in the rear-view mirror. Her eyes were glistening. 'I don't have any family left,' she continued in a soft voice..'The doctor says I don't have very long.' I quietly reached over and shut off the meter. 'What route would you like me to take?' I asked. For the next two hours, we drove through the city. She showed me the building where she had once worked as an elevator operator. We drove through the neighborhood where she and her husband had lived when they were newlyweds She had me pull up in front of a furniture warehouse that had once been a ballroom where she had gone dancing as a girl. Sometimes she'd ask me to slow in front of a particular building or corner and would sit staring into the darkness, saying nothing. As the first hint of sun was creasing the horizon, she suddenly said, 'I'm tired.Let's go now'. We drove in silence to the address she had given me. It was a low building, like a small convalescent home, with a driveway that passed under a portico. Two orderlies came out to the cab as soon as we pulled up. They were solicitous and intent, watching her every move. They must have been expecting her. I opened the trunk and took the small suitcase to the door. The woman was already seated in a wheelchair. 'How much do I owe you?' She asked, reaching into her purse. 'Nothing,' I said 'You have to make a living,' she answered. 'There are other passengers,' I responded. Almost without thinking, I bent and gave her a hug.She held onto me tightly. 'You gave an old woman a little moment of joy,' she said. 'Thank you.' I squeezed her hand, and then walked into the dim morning light.. Behind me, a door shut.It was the sound of the closing of a life.. I didn't pick up any more passengers that shift. I drove aimlessly lost in thought. For the rest of that day,I could hardly talk.What if that woman had gotten an angry driver,or one who was impatient to end his shift? What if I had refused to take the run, or had honked once, then driven away? On a quick review, I don't think that I have done anything more important in my life. We're conditioned to think that our lives revolve around great moments. But great moments often catch us unaware-beautifully wrapped in what others may consider a small one.
publicado por Miguel João Ferreira às 09:00
07 de Outubro de 2012

Brighella é dono de uma taberna e bebe mais do que vende. Muitas vezes falei com ele e perdi. Não sei de ninguém que use tanto a palavra como quem usa um punhal. Quando Macbeth perguntou: "Is this a dagger I see before me?", não pensava em delírios mas na violência do síndroma de Brighella, isto é, dos verbos e substantivos que lhe cruzavam a mente com ideias roídas de desejo e de culpa.

Brighella, porém, não sente culpa; porque Brighella não é um carácter trágico; e não é trágico porque não tem consciência. Inspirador do Figaro de Beaumarchais (que depois inspirou Rossini e Mozart), Brighella é o protótipo medieval/renascentista de Dean Moriarty, o con artist de On the Road de Kerouac. Enganar é uma arte.

O Egoísmo uma necessidade moral, movida pelo instinto da boa sobrevivência - que não é o mesmo que mera sobrevivência.

Como um camaleão social, Brighella transmuta-se em qualquer coisa e é capaz de reproduzir qualquer sentimento, não apenas para que não o cacem (ou para caçar), mas para dos seus actos retirar um proveito que, indo além da mera perspectiva de um ganho, represente, efectivamente, um grosso lucro.

É pai de todos os truques (que terá aprendido com o Diabo) e filho da Sociedade (que o gerou de si mesma).

Romântico, reinventa o romantismo, deixando-lhe, como Sade, o perfume insaciável da luxúria. Ser romântico será assim, na óptica deste ser ardiloso, rasgar as roupas da mulher que deseja e, sem cerimónias, morder-lhe vorazmente a carne.

Também ele sabe dividir para reinar; de acordo com alguns, mais informados, foi este personagem diabólico que inventou a expressão idiomática. O método é o da briga, claro está, daí o seu nome. Planta o mal, deixa-o crescer, mata alguém, culpa um outro, e leva, no fim da luta, os pertences dos contendores.

Brighella é o anti-herói perfeito, que faz rir quem nele se retrata. Num momento ou noutro todos o imitámos; mas, como é obvio, estavamos sempre a brincar.

Nunca, tal e qual as crianças, cometemos maldades a sério. Por isso mesmo Brighella é uma máscara... 

publicado por Miguel João Ferreira às 14:31
30 de Setembro de 2012

"Exmo. Sr. Dionísio Fortes,

 

Foi com um enorme prazer que recebi a sua carta pedindo a minha opinião (e digo “opinião” por não ousar usar o seu elogioso “ensinamento”) sobre o que para mim é a “Arte” e o que é a “Estética”.

Começo como se pede nestes casos: objectivamente. Isto é, com uma asserção basilar:

É estético o que suscita o desejo. Ponto.

A Estética, caro Fortes, é, a meu ver, a Disciplina da Voluptuosidade.

A Arte é indiscutível, indubitavelmente adogmática; e o dogma que agora estabeleço não está na Arte, mas fora dela, e é de fora dela que eu o constituo como parte integrante de si, isto é, da Arte.

Mais claro: os frutos da árvore que ela é podem cobrir-se de propósitos universais, mascarar-se, talvez, de Humanitários; podem dar-se, alugar-se, vender-se, apelar às massas; mas quem os morde e os sente, o sentido que têm ou não têm, o agradável ou repelente que suscitam, o conforto ou o asco, o belo ou o feio são sempre de um único homem, isto é, o juízo de um particular. Poderá até o meu amigo procurar impor-lhe uma apreciação, um valor, promover esse juízo no quadro da importância social; poderá, se lhe aprouver, dar-lhe um estatuto de lei ou incuti-lo como elementar na sensibilidade amorfa e homogeneizada do padrão social de Bom e de Belo e talvez até (grave ofensa à Arte) de Moral. Mas não pode, prezado Fortes, não pode, além da máscara social, controlar a reacção do indivíduo perante aquilo que vê.

Uma música que ouça em não sei que espaço e queira ter composto você mesmo; umas colunas de não sei que templo, cuja imponência apele ao seu desejo de as ter como parte material da sua porta; um quadro de não sei que cores, que anseie para enfeite das suas paredes brancas, para aplacar a palidez quotidiana; uma mulher, cujas formas o deixem inebriado… todas essas faces da volúpia têm, na hora do desejo, toda a Filosofia, toda a Moral, toda a Estética que suporta e até de que precisa! Todas essas formas e sons e coisas e pessoas, se as quer, se despertam com frémito o seu desejo de posse, são, meu amigo, e repito-o, são, sem dúvida, Arte, Arte, na sua forma mais essencial! E hão-de sê-lo até que enfim se farte, e tudo volte, de novo, a ser banal…

Não consigo, por agora, e também porque esta semana tenho andado fragilizado e febril, adiantar-lhe argumentos mais válidos para sustentar um parecer tão modesto. Permita-me, não obstante, dizer-lhe que, se ele é débil à vista de um olhar académico, está profundamente enraizado nas minhas convicções e, nesse sacrário de ouro das minhas crenças e dos meus pensamentos, não sei de coisa mais irrebatível.

Sem mais com que o mace e abraçando-o com amizade e respeitosos cumprimentos à sua amável esposa,

Muito seu,

J.B."

 

publicado por Miguel João Ferreira às 17:13
23 de Setembro de 2012

Porque me escreves ainda? Porque mandas o criado com bilhetes, como quem faz que telefona se estivesse num século em que isso fosse possível? Porque mandas mensagens que não dizem nada a não ser perguntar se estou disponível para te ouvir ou ler a dizer senão nada?
Se tens alguma coisa a dizer di-lo, em vez de fingires que não podes porque não te respondo, porque não te ouço, porque o gato te comeu a língua ou o cão te comeu o gato ou o diabo te comeu o cão e esfregou o olho.

Se não te respondo, se não te ouço, se o gato te comeu a língua ou o cão te comeu o gato ou o diabo te comeu o cão e esfregou o olho, tu sabes porque não te respondo e porque não te ouço e porque te comeu o gato a língua e o cão o gato e o diabo o cão e esfregou o olho!

Sabes que não te respondo e não te ouço e que o gato te comeu a língua e que o cão te comeu o gato e que o diabo te comeu o cão e esfregou o olho porque não mereces que te responda e que te ouça e que o gato não te coma a língua e que o cão não te coma o gato e que o diabo não te coma o cão e não esfregue o olho! E sabes que podes sempre dizer qualquer coisa, querendo realmente dizer qualquer coisa, em lugar de fingires que não dizes nada porque não sabes muito bem que dizer. E se não sabes muito bem que dizer quer dizer que não há nada a dizer. E se não há nada a dizer, porque finges ter alguma coisa a dizer e ficar ressentida porque não te respondo e não te ouço e o gato te comeu a língua e o cão te comeu o gato e o diabo te comeu o cão e esfregou o olho?

Se não me dizes o que queres dizer e apenas me perguntas se estou lá para responder ou ouvir ou impedir que o gato te coma a língua ou o que o cão te coma o gato ou que o diabo te coma o cão e esfregue o olho então é porque não tens nada a dizer-me ou porque o que tens a dizer-me de nada vale e então mais vale que não te responda e que não te ouça e que o gato te coma a língua e que o cão te coma o gato e que o diabo te coma o cão e esfregue o olho! Porque afinal, que vou eu impedir?

Nunca fui herói de coisa nenhuma, muito menos o teu, muito menos o meu nem tenho planos para me tornar um herói e para te responder e ouvir quando precisas, e para te proteger de todos os gatos e de todos os cães e de todos os demónios que vêm ter contigo a esfregar o olho! (E fi-lo, ainda assim tantas vezes!)

Nunca fui um romântico! Não sei ser romântico. não nasci no tempo da távola redonda, não acredito nos cavalheirismos, nem nos heroísmos, nem nos outros ismos, abomino as pessoas, acho o altruísmo uma capa do egoísta hipócrita e a tua tristeza uma capa da tua indiferença, da tua incapacidade de deixar de teimar em não ser outra coisa que não o erro constante com que te repetes. Se pelo menos, dissesses qualquer coisa que pudesse valer qualquer coisa! Mas tu não dizes nada, nunca dizes nada ou tudo quanto dizes quando dizes alguma coisa não vale coisa nenhuma porque nunca tens nada a dizer! Nada que valha alguma coisa, pelo menos. Ou se calhar sou eu que não valho nada, o que nos leva exactamente ao mesmo ponto:

Isto e o que tens a dizer e o que teria a ouvir se te respondesse e te ouvisse e o gato não te comesse a língua e o cão o gato e o diabo o cão e não esfregasse o olho, não vale nada. isso mesmo: o que tens a dizer, no caso de teres alguma coisa a dizer, não vale nada.

Se valesse a pena o que quererias dizer (se o quisesses), se não estivesses a fingir querer dizer o que não tens para dizer-me, não estaria a ter de dizer-te que não vale a pena fingires que mo digas quando apenas queres dizer-me que queres dizer-me o que não me dizes porque insistes em não dizer nada senão queixar-te que não te respondo e não te ouço e que o gato te comeu a língua e o cão te comeu o gato e o diabo te comeu o cão e esfregou o olho.

Então, porquê chatear-me a responder-te, a ouvir-te, a impedir que… etc.?

Vai à merda!

E quando acabares, vai à merda. e quando pensares em voltar, vai à merda. e fica por lá. na merda. onde tens o hábito de me pôr com a merda que fazes. Merda para ti e para a tua imbecilidade crónica. Porque insistes em maçar-me com coisa nenhuma, em falar se não queres dizer nada? Não queres dizer não digas. Mas não finjas que dizes para continuares calada.

O mais insuportável na tua estupidez é que mesmo para estupidez é insuportável. Tu és insuportável. É evidente, eu sou mais, mas não estamos a falar de mim. Não podemos falar de mim, porque já é público que sou uma besta. Insuportável.

E, no entanto, queres que te responda. Não, não te respondo. Não te ouço. Não impeço que o gato te coma a língua e que o cão te coma o gato e o diabo te coma o cão e esfregue o olho! Não mereces que te responda e que te ouça e que impeça que o gato e o cão e o diabo e o olho! Não mereces! Ou não o mereço eu o que é o mesmo e serve o mesmo propósito de impedir que me canse para coisa nenhuma.

Repito, que fique claro: Não te respondo, não te ouço, não te protejo, não impeço que o gato e o cão e o diabo e o olho! E isto que vês não sou eu a responder-te e a ouvir-te e a proteger-te do gato e do cão e do diabo e do olho. E não sou eu que falo contigo: é a tua estupidez a supor que falo contigo quando não falo e sou eu a dizer-te coisas, como fazes, sem dizer absolutamente nada, como fazes.

Ainda bem que és estúpida. Assim não te ressentes com isso. Com isso de eu não te responder e não te ouvir e de o gato te comer a língua e de o cão te comer o gato e o diabo te comer o cão e esfregar o olho… Com isso de seres idiota e de precisares de mim para o saberes de facto. E de eu precisar de ti para coisa nenhuma que não seja dizer-te que és idiota. E de não precisar de ninguém para saber que o sou.

Pelo menos eu sei que não há nada a dizer. As palavras esgotaram-se. Agora restam só os insultos que, segundo a moral, não são palavras: são indecências.

Mataste tudo. Matei tudo. A indecência é o que sobrou de nós os dois.
Estás a chorar? Não chores. Porque finges que choras? São só lágrimas e, como tu, nem são verdadeiras. 

Se choras, esfrega o olho. E vai para o diabo.

Eu já lá estou.

publicado por Miguel João Ferreira às 18:23
16 de Setembro de 2012

Para Beatriz Canas Mendes, procastinar é viver. Mas na adolescência tudo é urgente, nada é adiável.

Qualquer pormenor é uma descoberta que deve ser ponderada, apreciada e avaliada em toda a sua extensão. Quem quer inteiramente viver a experiência não pode dissociar o que sente do que pensa. Porque, por mais que se queira fazer crê-lo, não é possível separar o prazer da razão.

E no entanto a adolescência é a descoberta do mundo e da vida, das potencialidades do corpo, do sexo, das relações, das pessoas: de si e dos outros. Que tem isso a ver com a razão? Como ponderar?

Sim, tudo é urgente. Procastinar é viver aos 50 anos. Mas aos 15 procrastinar é absolutamente impossível; e o extremo é a medida certa:

O extremo da paixão, o extremo dos desgosto, o extremo do tédio, o extremo da fúria, da indignação, da esperança, da expectativa, da ceteza, da dúvida, da aventura, do medo…

O adolescente precisa do extremo. Sente-se senhor de si, sabe tudo, é dono do mundo e quer apenas crescer o mais depressa possível para gozar em plena liberdade a sua capacidade de experimentar tudo o mais depressa e intensamente possível. O que consegue fazê-lo, ou consegue passar a impressão de conseguir fazê-lo é a miúda da moda, o miúdo "fixe" com quem todos querem estar e falar.

O outro, que não sabe viver o extremo, nem quer, nem consegue, querendo, e que tem outros interesses menos imediatos, é o geek,  o intelectual. Este é ostracizado. É sobre ele que Beatriz nos fala o seu post Os Intelectualóides, datado de 10 de Setembro de 2012:

 

O ciclo de marginalização do intelectualóide inicia-se exactamente no momento em que este começa a conviver regularmente com pessoas alegadamente normais. Até então, talvez ele também o tenha sido, à semelhança dos restantes, mas os sintomas de que existem diferenças nunca lhe passam despercebidos, ainda que os que o rodeiam possam não as descobrir com facilidade. O intelectualóide sente-se diferente, ora não digno de permanecer na companhia dos seus pares, ora demasiado superior para que a isso se sujeite, e, a partir desse momento de revelação, decide passar a viver num mundo paralelo.

   Ora, o intelectualóide ainda criança, muito novo e inexperiente, desenvolve-se de modo diferente das outras crianças. As suas brincadeiras baseiam-se, de preferência, em reproduções fiéis do universo dos adultos, das suas conversas e empolgantes vidas – inevitavelmente misturadas com a ingénua imaginação de alguém da sua tenra idade - pois quem é grande é que sabe, eles é que têm razão e as outras crianças são parvas, dado que só se interessam por coisas estúpidas e sem significado (nesta situação, o intelectualóide revela já um precoce sentimento de superioridade de si próprio em relação a terceiros, adoptando também uma espécie de modelo de comportamento de alguém que admira profundamente).

   É deste modo que o intelectualóide vai crescendo, sem nunca se identificar com os seus pares. Com eles, não partilha opiniões, pensamentos, jogos, gostos musicais, televisivos ou literários, até porque os outros ainda nem sequer abriram um livro na vida, ao contrário dele, que já leu cerca de trinta livros, sete dos quais são os da saga do Harry Potter, que devorou de cinco a vinte vezes cada um, sem exagero. Os miúdos da sua idade só querem é bola e Playstation (ou Game Boy), mas, para ele, esforço físico é algo inteiramente desnecessário à sua sobrevivência, e, sinceramente, nunca foi muito bom a jogar aos Pokemons, ao Super Mario ou ao Sonic, pelo que são igualmente dispensáveis.

   Já o intelectualóide adolescente começa, aos poucos, a reconhecer que existe algo de errado na sua pessoa e a admitir que é provável que tenha alguma culpa por não ser socialmente bem-vindo. Há uma pequena possibilidade de a culpa não ser somente do resto do planeta.

   Então, a partir desta ideia tão inteligente, o intelectualóide começa a desejar ser um pouco menos parecido consigo mesmo. Progressivamente, vai adoptando alguns hábitos e tendências dos que, outrora, menosprezara. Tenta vestir-se como eles (cores pouco berrantes e que condigam umas com as outras), falar como eles (um impropério a cada duas frases), a viver como eles (sem objectivo nenhum a não ser pertencer a uma rede social e excrever axim) e a dar-se com eles (esta parte corre menos bem, porque os seus pais não permitem que saia à noite para bares e discotecas com os inconscientes dos seus colegas de escola).

   Se o intelectualóide for rapaz, mais cedo ou mais tarde apercebe-se de que não tem jeito para cativar o sexo oposto; se o intelectualóide for rapariga, vai demorar imenso tempo a habituar-se à ideia de que aqueles piropos que lhe tinham mandado eram, afinal, a gozar com ela.

   O intelectualóide adolescente percebe, pela primeira vez, que não tem realmente nada a ver com os jovens normais e que, se não se esforçar à séria, passará o resto da sua vida a ser um falhado.

   Entretanto, o intelectualóide muda de escola, pois passou para o ensino secundário. Tem a oportunidade de conhecer novas caras e conviver com elas num ambiente totalmente distinto daquele em que tinha estado até então. Agarrando-se à única chance que tem de lutar por se tornar uma pessoa diferente, melhor, faz de tudo para se sentir confortável nesta nova vida que lhe foi oferecida. Quer sentir-se acolhido e desejado, mais igual e menos diferente, destacar-se por mérito e não por ser um bicho anti-social.

   Com os seus novos colegas, na sua nova escola, sente-se muito mais livre para explorar a sua personalidade. Apesar de, a pouco e pouco, se identificar mais com os outros jovens, aprende a gostar cada vez mais de si próprio. Adquire um estilo pessoal, cimenta os seus valores, estipula o que é mais importante para si. A puberdade costuma ajudar. Com o despontar desta auto-estima, surge o orgulho em sempre ter sido quem é e o ciclo de rejeição termina. À medida que cresce, conhece também mais intelectualóides, fazendo-o ver que, afinal, nunca fora o único.

   Apesar do seu percurso irregular e, por vezes, um pouco triste e solitário, o intelectualóide aprendeu a ser feliz. Pode não ter sido da maneira mais fácil, mas valeu a pena. Aprendeu a distinguir o bem do mal, a verdade da falsidade e a apreciar os obstáculos da vida como nenhuma outra pessoa. Para si, são os pormenores que contam, porque foram eles que sempre o ajudaram a ser positivo nos momentos mais difíceis.

   Com o tempo, o intelectualóide pode vir a alcançar o sucesso e a plena realização pessoal, reconhecendo, do mesmo modo, que ainda tem muito para aprender. No entanto, sabe bem o que vale e não se rebaixa perante nenhum comentário negativo, daqueles que, outrora, o fizeram vergar perante outrem com menos valor. O intelectualóide vai ficando cada vez mais parecido com os seus pares enquanto, no fundo, tem a eterna consciência de que um intelectualóide será sempre um intelectualóide e que gozar desse estatuto não é um fardo, mas sim um privilégio. E que privilegiado ele é!


Ser intelectual é efectivamente um privilégio. Mas um privilégio muito solitário. Para o intelectualóide, procrastinar torna-se o único modo de viver. A sociedade aparta-o do que é imediato.

publicado por Miguel João Ferreira às 15:29
09 de Setembro de 2012

Escrever é triste, como disse Drummond; mas ler é extremamente aborrecido. Por isso, em muitas leituras, é comum saltar parágrafos ou procurar saber quando o livro acaba. Durante muito tempo este instinto pernicioso do mau leitor foi cientificamente denominado preguiça intelectual. Mas se o problema não estiver no leitor mas no autor ou no livro? Ou se afinal o hábito de saltar frases, paráfrafos e páginas for simplesmente um método, repleto de carácter científico, que leva o leitor a ler mais e melhor, que o ajuda a chegar à próxima página e, página a página, ao tão desejado fim do livro?

Esse é o Método Marilyn. Quem o "descobriu" foi Richard Brown e a 27.08.2012 ele foi recordado em Escrever é Triste por Maria do Céu Brojo:

 

Joyce, o dia 16 de Junho de 1904, dele, em “Ulis­ses”, as horas paro­di­a­das de Leo­pold Bloom, Molly Bloom e Stephen Deda­lus nem sem­pre esti­mu­lam lei­tura con­ti­nu­ada. Eve Arnold, a mulher pio­neira do foto­jor­na­lismo, reteve ima­gens várias da capi­tosa loura de Hollywood, Marilyn Mon­roe. Algu­mas, igno­rando poses, revelam-na entre­tida com um calha­maço que a alhe­ava do redor: “Ulis­ses”. Daqui, a per­gunta: “Ela leu ou não leu?” Acres­cento: atriz até nos momen­tos devi­dos ao repouso entre ses­sões fotográficas?

Déca­das após, Richard Brown quis rom­per o mis­té­rio. O pro­fes­sor de Lite­ra­tura escre­veu a Eve Arnold. Que sim, que Marilyn já o lia quando a conhe­ceu. Em voz alta, confessara-lhe, por gos­tar do estilo, con­quanto difí­cil. A loira mítica assim des­men­tiu o (pré)conceito de ser ape­nas um belo corpo exposto gene­ro­sa­mente e des­pro­vido de pen­sar lógico convincente.

Facto é o pro­fes­sor Brown trans­por para a ati­vi­dade letiva o apren­dido na inves­ti­ga­ção: “Ulis­ses” não deve ser lido com a per­sis­tên­cia da água que corre até furar pedra. Abri-lo ao acaso, ler um tre­cho, depois outro é a reco­men­da­ção de Brown aos alu­nos. “Método Marilyn”, chama-lhe.

 

E comenta depois MCB:

 

O mais curi­oso é o con­se­lho de Brown ter alguma vali­dade. Na fase em que lia quase tudo do recente apa­re­cido nas livra­rias — houve cura, feliz­mente! -, des­bra­vei o “Lin­guado” do Gun­ter Grass seguindo o método. Após meia obra dige­rida no modo tra­di­co­nal, não resisti: inter­va­lei pági­nas. Foi o melhor.

 

Quer-me pare­cer que o inter­va­lar pro­vei­toso de pági­nas no “Lin­guado” do Grass não será fruto de mérito do método mas antes da natu­reza do livro. Grass nunca me con­ven­ceu, por isso não me espanta que, nele, o método fun­ci­one.
É ver­dade que Cal­vino me con­vence e é pos­sí­vel ler Se Una Notte d'Inverno un Viaggiatore ou Palo­mar atra­vés do pulu­lante Método Marilyn" — mas é pos­sí­vel por causa da natu­reza frag­men­tá­ria das nar­ra­ti­vas “cal­vi­ni­a­nas” (não con­fun­dir com cali­vi­nis­tas, de Cali­vino, o pro­tes­tante).
Por outro lado, é obri­ga­tó­rio ler José Luís Pei­xoto ou Mar­ga­rida Rebelo Pinto de acordo com esse método, que é outra forma de dizer é con­ve­ni­ente, deles, não ler coisa nenhuma.
No entanto, se ten­tar­mos um romance de Dos­toi­evsky ou, numa maior rela­ção causa-efeito, um livro de Agatha Chris­tie, o método torna-se con­fuso. aliás, seguindo o "Método Marilyn", que seria do pobre Poir­rot?
Bem vis­tas as coi­sas, o "Método Marilyn" é o que uso nas livra­rias quando tenho dúvi­das sobre a qua­li­dade de um livro. Cinco minu­tos são mais do que sufi­ci­en­tes. E, uma vez apli­cado o método na livra­ria, por norma com sucesso, já não tenho neces­si­dade de o apli­car em casa.
Quanto ao Ulis­ses de Joyce, o que reco­lhi da minha expe­ri­ên­cia de lei­tor e do con­ví­vio com alguns aca­dé­mi­cos mais fanáticos é que este romance tem, como cer­tos livros — ex.: À La Recherche du Temps Perdu de Proust -, uma carac­te­rís­tica muito par­ti­cu­lar: o agen­da­mento.
Os livros, como os fru­tos, devem ser colhi­dos no seu tempo pró­prio. Os moran­gos (se não falho na cul­tura agró­noma) são em Maio. Proust e Joyce são na ter­ceira idade — na pior das hipó­te­ses, nunca antes dos 50.
Por essa altura, a lan­gui­dez, a expe­ri­ên­cia, a paci­ên­cia ori­en­tal adqui­ri­das na baga­gem de um espí­rito que se tor­nou melan­có­lico, fazem com que saiba bem seguir as via­gens de Bloom nos labi­rin­tos do seu quo­ti­di­ano ou as memó­rias de um Proust aca­mado. Por isso lá estão, na pra­te­leira, a olhar para mim, enquanto espe­ram que tam­bém eu me veja nesse estado.
Até lá, vou apro­vei­tando o ser novo e prá­tico para ler livros com maior dose de leveza, como os de Kant, Nietzs­che ou Tols­toy que, com­pa­ra­dos com os de Proust e Joyce, parecem a Treasure Island de Robert Louis Stevenson.

 

Moral da crónica: evi­tar o "Método Marilyn" é apli­car o método no momento da com­pra e guar­dar o livro para o seu tempo pró­prio.

Ainda que, a jul­gar pela exten­são deste texto, apli­carmos aqui este método tam­bém possa vir a provar-se uma medida útil. Há extensões que fazem mesmo apetecer um salto para a última página.

Quando acaba mesmo esta crónica?

publicado por Miguel João Ferreira às 22:14
02 de Setembro de 2012

Um copo de whisky é razão que baste para pensar em suportar mais um dia. Há algo na decadência inegável do álcool que te dá vontade de experimentar tudo outra vez. O chefe que grita ordens que não sabe cumprir, a mulher que te grita queixas que ela não entende, os filhos que te gritam revoltas que não são as suas, os vizinhos que te gritam culpas do que não fizeste.

Um copo de whisky e o chefe e a mulher e os filhos que nem interessa se tens ou se são teus e os vizinhos que te desprezam com um desprezo mútuo desaparecem todos num ápice. E o dia seguinte é uma perspectiva encantadora de passar por tudo outra vez, com variantes mais apelativas.

Um copo de whysky e a felicidade é possível. Se eu não fosse alcoólico quereria sê-lo. Como não sou alcoólico escrevo sobre a perspectiva de o ser com uma nostalgia própria de quem tem saudades do que está para vir. Se eu fosse alcoólico não poderia escrever sobre o encanto de se ser alcoólico, porque não há qualquer encanto em ser alcoólico e, sendo alcoólico, não saberia sequer o que o encanto é: um engano terrível. Ou seja, estaria encantado com o ser alcoólico sem o saber que o estava e continuando a procurar o encanto no álcool. 

E talvez o maior charme do álcool seja mesmo esse: fazer-te continuamente procurar algo que já tens e de que, por isso, não precisas, como se o não tivesses e precisasses de o ter. Nesse aspecto será justo dizer que o álcool é tal como a vida. Já tens o milagre da vida. Vives. Respiras. Mas faças o que fizeres permaneces descontente e continuas a procurar o milagre de viver melhor.

Se o álcoolismo não fosse uma doença crónica, eu quereria beber até esgotar o corpo. Mas o álcool é uma doença crónica. E a vida é uma doença crónica. E eu vivo, todos os dias, exaustivamente, até me esgotar.

E porque não suporto mais o esgotamento irracional das minhas forças, bebo, tanto quanto posso e mais do que posso, na esperança de que ao fazê-lo possa sentir-me mais vivo do que me sinto vivendo e menos exausto de pensar e sentir a vida que tenho e faço. E o que tenho e faço é coisa nenhuma. Então porque me custa pensá-lo? E senti-lo? E vivê-lo? Porque será que viver o que não vivo me cansa tanto e me leva tanto a beber tanto o que me sabe tão mal e tão bem por me saber tão mal? 

Porque há algo na nossa decadência que é fascinante.

Há algo no amargo que é doce.

Há algo na dor que te dá prazer, que te conforta mais que um abraço ou um beijo.

Quando na vida vês o sol e sorris, e vês as flores e dizes que são belas, e te deitas com uma mulher nua e estás dentro dela e te vens e descobres que a vida é perfeita, descobres afinal que a vida não tem perfeição nenhuma, que toda essa luz, toda essa beleza, todo esse prazer são tão breves, tão insignificantes que valem coisa nenhuma. E o descobrires quanto valem (que é nada) dá-te um vazio maior do que o que tinhas antes de saber que essas breves interpretações da felicidade possível existiam.

Mas a dor, mesmo quando passageira, mesmo quando não a sentes, mesmo quando te leva à mais excruciante e abominável decadência, manifestação eloquente do teu permanente desejo de auto-destruição, da tua razão intelectual de existir a lutar contra o teu instinto de sobrevivência, a dor é sempre real, é sempre contínua, é sempre a certeza, a única que tens, de que realmente estás vivo.

O institno de auto-sobrevivência é uma armadilha de Deus. Um condicionante biológico implantado nos teus neurónios, nas tuas células, no teu adn, para que possas continuar a adorá-lo. E quando, não te querendo matar, perdes a fé, ele vinga-se matando-te com dúvidas:

Que sentido há nisto?

Que estou aqui a fazer?

Porque quero existir ainda?

E porque sabes que não queres, bebes. No fundo é como se vivesses. Mas o álcool dá mais resultado. E nunca te desilude, como os outros.

Ah, e o amargo do whisky… O amargo é o único sabor que me sabe a doce. 

Se tu fosses amarga…

publicado por Miguel João Ferreira às 20:48
26 de Agosto de 2012

O que realmente faz uma tragédia não é o acontecimento trágico em si, mas o modo como lidamos com ele. Isto está bem ilustrado na prancha nº152 de Little Nemo in Slumberland de Winsor McCay (1905-1914).
Quando Flip diz a Little Nemo que já não pode rever a princesa e voltar a Slumberland - destruída pela Aurora como represália pela expulsão de Flip, seu sobrinho, da Terra do Sono -, Nemo fica tão desgostoso que se afoga em lágrimas. 

Winsor McCay, para quem a exploração imediata do inconsciente é mais importante do que uma boa trama ou um bom diálogo, aproveita de pronto a sua própria deixa para tornar a expressão literal: as lágrimas de Nemo correm numa torrente que se transforma em dilúvio e a casa onde o herói vive com os seus pais parece uma arca vogando no desespero, à espera de ancorar no monte Ararat da tranquilizadora realidade. 

O cenário apocalíptico desenhado por McCay é visualmente extraordinário; mas o mais interessante no decorrer da hecatombe é assistir às reacções de cada personagem:

O pai, moralista e cívico, repreende Nemo: "Look Nemo, your tears have flooded the whole town!".

A mãe não perde a consciência social: " Oh, what will the neighbours say?!" - porque uma imagem vale mais do que mil qualidades.

E Flip, catalizador da desgraça, atravessa três fases:

Primeiro é a voz da razão, quando adverte (temendo pela vida): "stop weepin' or we'll drown!"

Depois, a voz do conformismo, com aura de presságio: "A lake of tears an' a big storm coming!".

Porfim, quando Nemo pára de chorar e começa subitamente a rir (ao ver como Flip se debate para sobreviver à intempérie), é a voz da indignação e do pânico: "This is no time to laugh! This is no time to laugh! This is were I begin to bawl!"

As três fases de Flip representam a voz popular: 

Quando algures se despoleta uma tragédia, a tendência humana imediata é recorrer às lágrimas; quando, na verdade, as lágrimas são por norma o alimento dessa mesma tragédia. 

O lamento ou o luto surgiram como forma de o indivíduo, no conjunto, purificar emoções e prestar homenagem às vítimas de um acontecimento nefasto. Mas talvez seja hora de mudarmos o modo como lidamos com as nossas contrariedades.

O que a prancha de McCay nos sugere é que talvez seja precisamente nesses momentos trágicos que, ao contrário do senso-comum, mais sentido faz rir. Como Nemo.

Quando nemo começou a rir, livrou-se da desgraça e chegou a porto seguro. Da mesma forma que é rindo que, em Bedknobs and Broomsticks (Se a Minha Cama Voasse), os heróis conseguem manter a cama no ar. Ou que Dorothy e os seus amigos sobrevivem a Oz ("Ha ha ha, ho ho ho!"). Ou que Alice se protege do absurdo de Wonderland. Ou que Peter Pan, Wendy e Cª voam para a Terra do Nunca.

Seja qual for o exemplo, a ficção do inconsciente diz-nos como devemos lidar com as tristezas. Mas a nossa consciência moral e a necessidade narcisista que temos de receber conforto levam-nos sempre ao Muro das Lamentações.

Ao contrário das narrativas mencionadas, McCay não tem uma grande história; mas criou um universo extraordinário onde cabem todos os sonhos. E, como Nemo, embarcando 20.000 léguas nas profundezas de nós próprios, perdemo-nos lá dentro.

É aí que aprendemos mais.

publicado por Miguel João Ferreira às 16:34
04 de Março de 2012

Tenho vindo a observar uma constante que representa um fenómeno curioso:

 

Contrariamente às previsões mais razoáveis, o homem comum gosta de se confessar. Tem, no entanto, e aqui está a maior curiosidade, a tendência estranha de confessar o que não fez ou não é.

 

Por exemplo:

 

"Confesso que não sou invejosa"

 

Diz, em citação, estrela de novela a revista cor-de-rosa. Com certeza, leitor, já foste testemunha deste tipo de confissão.

 

Outras variantes são:

 

"Confesso que nunca me droguei"; ou "Confesso que não gosto de chamuças".

 

Se o confessado arrisca uma afirmação, não vai além de uma trivialidade:

 

"Confesso que me descai parte do estômago quando faço a dança do ventre"; ou “Faço uma confissão. São poucas, seis ou sete, ou nem isso, as pessoas com as quais, ao longo da vida, verdadeiramente me incompatibilizei".

 

Nestas situações, lidamos, bem se vê, com confissões de feira, em que o alegado arrependido não busca mais do que obter atenções ou cair em graça. Há, naturalmente, falta de confiança, mas, mais grave, falta de algo significativo a dizer.

 

Este tipo de penitente está a pedir quem o ouça, numa época ingrata em que ser ouvido é um luxo que se paga caro em sessões de apoio psicológico.

 

Há ainda outros casos não menos curiosos nem menos crónicos em que os pacientes simplesmente confessam, assim mesmo, sem complemento directo ou pergunta prévia:

 

- Eu confesso!

- Muito bem, confessa o quê?

- Ah, não, isso agora é cá comigo!

 

Convenhamos, isto não é nada. Podemos até, por exercício estilístico e excesso de generosidade conferir ao verbo, na expressão "eu confesso", um papel intransitivo, com a mesma validade de "a tia morreu"; ou um papel mais activo, de modo que o nosso protagonista passa a ser um inquisidor com poderes de extorsão de intimidades:

 

- O cavalheiro é médico?

- Cirurgião. Cirurgião plástico.

- Aaaaaaaahhhhh!! Digníssimo!

- Deveras... Então e o senhor o que faz?

- Eu confesso.

- Não diga!

- Digo, digo! Confesso e à bruta! Sem veleidades!

- Curioso! E como é que faz isso?

- É simples: todos os criminosos votados ao silêncio são levados à minha presença, onde, por meios convincentemente coercivos, os instigo a contar-me o que sabem e não sabem até admitirem os crimes. O meu método faz maravilhas às taxas de criminalidade.

- Deveras? Digníssimo!

 

Continua a não convencer.

 

E há ainda aqueles que se confessam por terem sido agraciados com uma educação beata; esses surgem a par dos que se confessam porque vivem com medo. Os dois tipos confundem-se.

 

No princípio há uma necessidade potencialmente louvável de expiar as suas faltas. Mas esta noção de que as faltas são expiáveis, está sujeita a uma série de erros. Como este texto procura ser dogmático, os erros são três (como a Trindade, número perfeito para qualquer dogma):

 

O primeiro está no propósito que os move: expiam como quem busca um alívio e não com o intento de alcançar um progresso. Pesa-lhes a culpa e não a mediocridade. 

 

O segundo, é suporem a existência de um elemento sobrenatural, motor e fonte de absolvição.

 

O terceiro (e mais grave) é a ideia de que para alcançar o “Altíssimo” devem recorrer aos serviços de um intermediário. O que nos oferece algo como:

 

- Então meu filho, que mal fizestes hoje? - (o "s" em fizestes explica-se por ser um padre de província que sabe mais latim do que português).

- Ai, sô padre, qu'eu pequei!

- E qual foi a tua falta?

- Ai, que começou por ser de jeito, depois faltou-me o dinheiro, depois vai-se ver é de mulher e agora é de tudo!

- Não, minha besta, o teu pecado! - (Padre de província, como se sabe, perde depressa as estribeiras).

- Ah!, esse!, Bem, sô padre, não tenho esposa, ‘tá a ver...

- Sim, - responde o pastor impaciente, - já mo dissestes...

- Mas tenho galinhas, ‘tá a ver...

- Ah, coirão devasso! - (Pausa para efeito dramático) - Mas vá, desta vez passa. Dois Pais Nossos e cinquenta Avé Marias. Em nome do pai, do filho e anda lá, filho, vais perdoado!

 

Como se vê, usar de intermediário neste tipo de folclore é um pouco como enviar o padrinho para Benidorm para dormir com a mulher na noite de núpcias.

 

Se eu fosse Deus, que agradeço não ser pois deixaria de ser o que quer que fosse, ficaria maçado com esta atitude. Não fica bem a um Deus perder protagonismo.

 

Para evitar estes erros, é preciso saber confessar. Para se saber do que falo, deixo aqui alguns exemplos:

  

“Confesso que estropiei uma velhinha!” Quer a confissão, quer o acto são, neste caso, coisas que sabem bem. Ou: “Confesso que fui eu quem atirou o cocktail molotov para a vitrine da loja O REI DAS MEIAS!” Ou ainda, medida ainda mais proveitosa para a sociedade, “Confesso ter sido o autor do virus que acabou de vez com os blog da Rititi e da Pipoca mais Doce!

 

Isto sim são confissões que se prezem.

 

Feitas as contas, parece-me evidente que a melhor confissão é o silêncio e na dúvida não confesses coisa alguma. Mas se realmente te deparares com a necessidade premente de confessar qualquer coisa, por tudo o que é mais sagrado,  fá-lo em grande!

 

Não sei de coisa na vida que não deva fazer-se em grande.

publicado por Miguel João Ferreira às 22:05
26 de Fevereiro de 2012

Primeira História: A Política dos Planetas

Com a recente descoberta dos primeiros exoplanetas do tamanho da terra, Kepler 20e e Kepler 20f, estamos mais perto de alargar os horizontes da emigração em grande escala, necessidade absoluta em tempo de crise. Os astrónomos, embuídos de consciência política, pretendem deste modo responder ao apelo do Primeiro-Ministro Passos Coelho, que vê nestas saídas uma solução ideal para regularizar as estatísticas comunitárias do desemprego.

Estes planetas estão, é verdade, a suficientes anos luz da terra para que não possamos chegar-lhes e não reúnem ainda (por força das altas temperaturas, pouca água e reduzida percentagem de oxigénio) suficientes condições de habitabilidade. Mas assim como assim, considerando as condições actuais de Portugal, muitos desempregados vêem com bons olhos esta possibilidade de mudança.

Não foram feitos sobre isto comentários oficiais, nem se consideram, apesar de prováveis, contactos extra-terrestres, cuja existência, nesta altura, já ninguém pode negar. A dúvida, aliás, não é se há ou não há extra-terrestres, mas a que género pertencem:

Ou são tão avançados que não querem nada connosco, ou são tão atrasados quanto nós e nem conseguem chegar até aqui.

Quero apostar no primeiro. se é verdade, como disse Einstein, que só a estupidez é tão vasta quanto o Universo, referindo-se ele à estupidez humana, há uma esperança generalizada de que o "humano" seja exclusivo apanágio da Terra e não uma evidência inter-galáctica.

 

 

 

Segunda História - Fronteiras da Ciência: A Crise dos Clássicos e o Alargamento do Espaço Europeu

Cientistas dizem que a ONU deve coordenar planos para lidar com extraterrestres.

 

Os cientistas defendem mesmo a criação de uma agência especial da ONU para lidar com eventuais contactos com seres de outros planetas. Com isto, pretendem iniciar um “processo adequado baseado em conselhos de peritos sérios e responsáveis” mas temem “interesses e oportunismo” num caso de contacto de extraterrestres. (...). Dizem ainda, “a falta de coordenação pode ser evitada através da criação de um quadro amplo num esforço verdadeiramente global governado por um corpo com legitimidade política internacional”. Mais, "As nações unidas têm já um fórum ideal para lidar com a questão, o Comité Para Utilização Pacífica do Espaço.

A crise, denunciam-no todos os sinais, já chegou à Ciência e nota-se no cientista o esgotar da capacidade criativa (de que, ao contrário do que supõe o senso comum, a Ciência também precisa). Sem mais que inventar, descobrir ou analisar cientificamente, fatigado do microscópio, do telescópio e de outros "'scópios" que tais, o cientista estica a Ciência com a mesma plasticidade com que o jornalista estica a notícia (ou a noção que tem dela), de modo a incluir reportagens sobre a D. Alzira de Feijões-de-Baixo que perdeu a bota onde estava a pensão ou o que Cavaco disse sobre a vitória mais recente de José Mourinho.

 

Da não-economia e não-notícia, evoluímos progressivamente para a não-ciência.

Façamos então um pouco de Ciência:

 

Quem, com seriedade, que não esteja em estado comprovado de alcoolismo, consumo de estupefacientes ou clinicamente louco, pode, sem rir, afirmar: eu vi um extra-terrestre? É evidente que os há: o Universo é suficientemente vasto para albergar mais do que estes miseráveis terráqueos. Mas, se se conclui à partida que o E.T. é substancialmente superior à espécie humana, por que raio se dará ele ao trabalho de vir até à Terra a não ser que tenha o azar de ter um problema na nave?

Ora, numa análise séria da alta improbabilidade de um E.T. ser imbecil ao ponto de se deixar correr o risco de vir aterrar para estes lados, que sentido fará o pedido de comissões e conselhos para a eventualidade de contactos do 3º grau? É evidente que os cientistas em causa não são portugueses, de outro modo depressa se concluiria: Já chegou? Ainda não? Então homem, deixe lá isso! Quando chegar a gente desenrasca-se! - E assim é que deveria ser. De outro modo, é como dizer:

"Vamos criar aqui no Sahara uma comissãozinha de boas-vindas à chuva naquela de ver se chove. E já agora, porque a chuva pode falar outras línguas e diz respeito a toda a gente, criemos também um "corpo de legitimidade internacional", com "peritos sérios e responsáveis"! E vai correr tudo muito melhor.

Francamente! Só expressão "peritos sérios e responsáveis" é já em si de levantar suspeitas. Se pensarmos então em "peritos" sobre algo que ninguém viu, e em "sério" com base no que conhecemos do homem de ciência (leia-se macambúzio e taciturno), e ainda no "responsável" que lhe vamos vendo (que não passa por ser pontual e ter sentido de moda),  é maior ainda a nossa estranheza.

E com certeza, esta comissão de boas-vindas à chuva, porque a chuva vem do espaço (tal como os E.T.s), coordenar-se-ia com o já existente, "Comité Para a Utilização Pacífica do Espaço", medida essencial, não vão os russos e os americanos ensaiar na lua novas versões da guerra fria. Só por precaução (mas não há causas para alarme) convirá recear "interesses e oportunismo". Uma formalidade.

Perguntará o leitor: Ora essa! Porquê?

Naturalmente, respondemos, a medida não afirma a existência - quase mítica (como os E.T.s) - de interesseiros e oportunistas, mas quer apenas salvaguardar (como, uma vez mais, no caso da Comissão Para os E.T.s) a eventualidade da sua aparição.

Em resumo e objectivamente, a verdade é esta: Lavoisier e Newton já passaram à História. O que está a dar no cientista moderno é o saudosismo de Star Treck e Buck Rogers.

 

Numa Era em que se dissipam todas as fronteiras, caiu também aquela que separava a Ficção-Científica da Ciência. Ao lado de Pasteur, Curie, Edison, Einstein, Kepler, Lineu ou Bohr, passaremos a ter nomes como Bradbury, Asimov, Arthur C. Clark, Robert A. Heinlein, Ursula K. Le Guin, Frank Herbert ou Philip K. dick. E essas fronteiras antigas entre a Ciência com e sem ficção são agora anexadas ao cada vez mais comum espaço europeu.

 

Muito em breve a União Europeia incluírá o Senegal, a Namíbia, a Mongólia e a Ilha da Páscoa. Já sem falar da galáxia com 3 sóis que anda ali no cruzamento entre Plutão e Saturno. Durão Barroso não terá mãos a medir. Talvez só com antenas...

 

 

 

Terceira HIstória - O Calimero dos Planetas - Brevíssimo Manual de Astronomia - Efeméride

A 24 de Agosto de 2006, a União Astronómica Internacional decidiu: Plutão já não é planeta.
O que levou a esta decisão?

Plutão está a 4 biliões de milhas do sol, tem uma massa inferior à da lua, 1500 milhas de diâmetro, 300º abaixo de zero e tanta luz quanto o estádio do Benfica em dia de vitória do Porto. Para os que não seguem desporto, nenhuma.

Originalmente perseguido por Sir Persival Lowell sob o hipotético nome "Planeta Z" (Séc. XIX), foi efectivamente descoberto por Clyde Tombaugh, em 1930, um agricultor do Illinois com tantos estudos quanto... um agricultor do Illionois.

Anunciada a sua descoberta, foi rebaptizado por uma adolescente com gosto pelos clássicos (feito conseguido graças ao avô - há sempre um avô nestas histórias), mas o nome escolhido, Plutão (em inglês Pluto), deus romano dos reinos subterrâneos (a que os gregos chamaram Hades - não confundir com hádes, popular recreativo para hás-de), não reuniu consenso (mesmo sendo aprovado), já que Pluto era também o nome dado pela empresa Y (há sempre uma empresa nestas histórias) a determinado laxante de efeitos milagrosos e com o sugestivo slogan: when nature won't, Pluto will!

Ainda se discute, nos sempre bélicos circuitos académicos, se foi o laxante, o deus ou o planeta que inspirou Walt Disney, em 1931 (enormíssima e desacreditada coincidência), a criar o inseparável e canino amiguinho de Mickey, Pluto.

O que se tem como certo é que, 76 anos e milhares de manuais de Ciência depois, há lugar a uma extravagante redefinição planetária e, Plutão, o planeta mais pequenininho da galáxia, subitamente, deixou de existir. Vendo a sua história, até parece destino.

Naturalmente, na rua, choveram cartazes: Give us back Pluto! size doesn't matter!

 

Não importa, uma ova! e a prova está aí: Plutão, que até tem 3 luas, só porque é pequenino, foi discriminado e já ninguém sabe o que é.

A polémica, como convém à polémica, ainda corre, a caminho de seis anos depois. Mas, também como lhe convém, não traz resultados. O que fazer de Plutão? É ou não é?

Jon Stewart, sempre mordaz, resume bem o problema:

We don't care what it is, we just wanna call it Pluto!

(Há sempre uma moral nestas histórias).

publicado por Miguel João Ferreira às 21:15
12 de Fevereiro de 2012

D. Raimundo de manhã põe os óculos.

 

Ainda tem a touca de dormir, as ramelas nos olhos, o pijama às riscas, os lençóis por cima do seu sono curto, e esbraceja como um urso esfomeado. Mas a sua identidade só se acha com esse objecto de massa preta perfilando as linhas do seu rosto.

 

D. Raimundo não é Raimundo nem Dom sem ter esse suporte de si mesmo e é sobre ele que os seus dons se constroem; é uma imagem que moldou, claro está.D. Raimundo nem precisa de óculos... mas o que tem de ver da realidade parece-lhe desfocado sem a sua fachada de homem prezado, sem a sua roupa de estar com alguém, sem a sua pele de ser conjunto.

 

Assim, mesmo quando está sozinho, para que esse esforço seja natural, D. Raimundo, ao despertar para o que supõe ser a vida, prende de imediato essa réplica ao rosto e exercita-se condigno e inteligente. E é com grande satisfação que, uma vez despertado com o placebo do falso em que se fez, salta da caminha sacudindo as carnes e, diante de um espelho muito largo, bate palmas ruidosas de contente, proclamando em urros o repetido sucesso de se esconder do que é.


Não tem mais agora do que memorizar aquela imagem e de a levar consigo para onde quer que vá, mostrando a toda a gente que o que finge é um fingimento tão humanamente natural que não pode ser senão o mais profundo reflexo de si próprio. E os outros, que são como ele, nem sonham que estará a mentir. Não lhes interessa, aliás, porque isso seria pôr em perigo a sua naturalidade. 


E de noite, antes de dormir, D. Raimundo e os seus pares (ímpares entre si) vão a clubes comuns criados para esse efeito de trocar impressões sobre as suas máscaras e os seus adereços constituintes e orgânicos, entre os fumos das palavras ôcas, os éteres dos sentidos dúbios e as hipocrisias prazenteiras das palmadas nas costas.


A felicidade, enfim, é uma escolha, e a escolha de Raimundo é isto...


E tu, leitor, como escolhes?

publicado por Miguel João Ferreira às 13:46
05 de Fevereiro de 2012

O objecto de estudo desta crónica é a relação de distâncias entre dois pilares sagrados do organigrama do colectivo humano: A Ciência e a Política.

 

Convém começar por realçar que não sei nada de teoria da Ciência, o que reforça o meu sentido empírico; e não percebo nada de Política, o que faz de mim um especialista.

 

Falar em Ciência Política é o mesmo que dizer agri-doce com prevalência do sabor amargo. Uma contradicção de termos que nem por isso nos traz os deleites das contradicções imanentes a certos requintes culinários.

 

Mais grave, dizer Ciência Política é, por um lado, desprestigiar a Ciência (que, pelo menos em Portugal, já carece exageradamente de prestígio e de meios para se tornar útil) e, por outro, é falsificar a Política para além dos limites do razoável.

 

Importa por isto, de uma vez, separar as águas.

 

Uma das principais distinções entre Ciência e Política é o elemento da prova. A prova, como se sabe, é um dos constituíntes mais críticos do processo científico.

 

Na Ciência, dá-se por meio de uma demonstração complexíssima, baseada em experiências, cálculos, variáveis, estatísticas com raízes quadradas e máquinas de calcular com mais de 15 botões e uma intrincada e cuidadosa comparação de resultados sem efeitos práticos.

 

Já para a Política, a prova é algo completamente distinto:

 

Trata-se de uma demonstração complexíssima, baseada em experiências, cálculos, variáveis, estatísticas com raízes quadradas e máquinas de calcular com mais de 15 botões e uma intrincada e cuidadosa comparação de resultados sem efeitos práticos.

 

A mesma separação radical pode ser observada entre os seus agentes:

 

O cientista é um indivíduo que sabe tudo sem saber nada e diz tudo sem saber nada.

Ao passo que o político é um indivíduo que sabe tudo sem saber nada e diz tudo sem dizer nada.

 

Por outro lado, quando em Ciência se diz «carece de prova», quer-se dizer que a experiência falhou, a demonstração não é fiável e a aceitação por parte da comunidade internacional é impossível.

 

Por oposição à Política em que, quando se diz «carece de prova», quer-se dizer que a experiência falhou, a demonstração não é fiável e a aceitação por parte da comunidade internacional é inevitável.

 

Não podiam ser mais diferentes.

 

Para que não restem dúvidas, observe-se a seguinte equação não falaciosa em forma de silogismo:

 

C (Ciência) => carece de prova = não é científico

P (Política) => carece de prova = honesto

CP (Ciência Política) => carece de prova = não é científico que seja honesto

 

Prova de que a Política não precisa da Ciência para nada: quod erat demonstrandum (q.e.d)

 

Devemos pois ter em mente as particularidades destes dois ramos do saber, para que não incorramos em imprecisões desnecessárias.

 

Como a Ciência e a Política bem sabem, a imprecisão pode ser cruacial para o sucesso de qualquer experiência e o sustentáculo de uma boa prova. Porque mais importante do que a qualidade da experiência é a qualidade do erro. E não há cientista ou político que possa negá-lo.

publicado por Miguel João Ferreira às 13:10
29 de Janeiro de 2012

«Quanto mais penso, menos sinto.

 

Quanto mais sinto, menos penso.

 

Quanto mais penso o que sinto, menos percebo o que sinto e mais penso no que penso, mas já não sinto nem o que sinto nem o que penso.

 

E quanto mais sinto o que penso, mais sinto que pensar e sentir não combinam nas sensações nem nos pensamentos.

 

E quanto mais sinto o que sinto e penso no que penso, mais penso que o que sinto é maior do que o que penso, mas que não há maneira de perceber porque o sinto.

 

E depois já nem sei se o penso só para não sentir da mesma maneira ou se o sinto a um extremo além das sensações como modo absurdo de tentar não pensar.

 

Ou, quem sabe, limito-me a pensar e sentir num esforço de sentir que penso, mesmo quando não penso e apenas sinto; isto é, quando todo eu sou animalidade e sensação, racionalizo, tentando "civilizar o que não tem civilização possivel ou, se a tem, tem-na apenas numa manifestação puramente artificial.

 

Ou seja: se sinto e penso que sinto, talvez não o sinta deveras porque estou pensando; e se sinto e não penso, talvez não o sinta porque não o sei por o não ter pensado.

 

Nesse caso, nunca sinto de facto e apenas penso, mesmo quando não penso ou mesmo quando penso que não penso mas sinto.

 

Faz sentido?

 

Não sinto que o faça nem penso nisso.

 

Penso apenas que não sei o que sinto e que não vale a pena pensá-lo.»

 

Foi com estas palavras que o Prof. Jean Sèrien abriu a sua palestra sobre as faculdades do cérebro. Durante duas horas e meia vi-o dissertar sobre as emoções humanas e o comportamento neuronal da grande massa cinzenta. Seguiu-se uma sessão de perguntas do público, uma mesa redonda, o testemunho de um segundo orador (gago e disléxico) e só então, passadas quatro penosas horas no meu relógio de pulso, se abriu o plenário aos jornalistas.

 

Quando chegou a minha vez, já me tinha esquecido de tudo quanto tinham dito e de quanto eu queria dizer. Para não fazer má figura, perguntei qualquer coisa de circunstância sobre a funcionalidade do reflexo. Um erro, já que o Prof. viu larga pertinência na pergunta e se alongou numa resposta de mais de meia hora. 

 

Quando finalmente pude levantar-me, corri para a mesa do café, no buffet que nos esperava na sala contígua e servi-me de uma grande taça. Não conseguia entender porque tinha a minha revista de vinhos enviado um correspondente a um evento académico sobre neurologia emocional. Encostei-me à janela entreaberta, perdido nestas cogitações, para apanhar um pouco de ar, procurando um ângulo para o texto que daí a umas horas teria de entregar ao editor chefe. Foi então que reparei na grande faixa suspensa nas janelas do quinto andar no prédio em frente:

 

GRANDE EVENTO DE ENOLOGIA.

 

Estarrecido, levei a mão ao bolso. A morada estava correcta. Mas, se a morada no papel estava correcta, o lugar correcto estava no edifício errado. E isto só podia dizer uma coisa: «O estafeta escreveu-me o endereço errado!»

 

Falei alto de mais. Da sala onde discursava o Prof. viraram-se umas cabeças sisudas e reprovadoras. Voltei a olhar pela janela. Quatro homens engravatados retiravam as faixas. O GRANDE EVENTO terminara e eu acabava de perder o meu artigo por um erro de dactilografia. O que dizer ao editor?

 

Sem outro remédio que não improvisar, como compete a um bom jornalista na ausência de factos, voltei para a sala do Prof. Jean Sèrien, peguei no meu bloco de notas e comecei a escrever:

 

"UM BOM VINHO

 

Da garrafa à boca. Como pensá-lo e como senti-lo. Como o cérebro responde ao paladar..."

 

As notas corriam depressa. Senti o princípio de um bom texto. Isto é: pensei no quanto este início bastaria para convencer o meu editor.

 

Os factos estão sobrevalorizados. O que importa, em última análise, é a notícia. É a notícia que dá satisfação ao leitor. E desafio qualquer um a provar o contrário.

publicado por Miguel João Ferreira às 21:55
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